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FILOSOFIA

A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A. B. Pinela



Terça-feira, 12.02.08

Filosofia, fé e felicidade - I

Todos queremos ser felizes, é uma asserção indesmentível. Por exemplo, Santo Agostinho procurou e encontrou a felicidade em Deus, outros pensam encontrar aquele bem espiritual em outros objectivos. Santo Agostinho não prejudicou ninguém com a sua escolha; poder-se-á dizer o mesmo de outras pessoas que querem ser felizes? Um breve olhar pelo que se passa à nossa volta dir-nos-á que não, que há quem não olhe a meios para alcançar a felicidade, mesmo que a sua felicidade espalhe infelicidade a outrem.

No Outono de 386, Santo Agostinho retira-se para Cassicíaco com o propósito de descansar do seu magistério e fortalecer a saúde, padecia de enfermidade desconhecida. Mas Agostinho não parte só. Como sente necessidade de comunicar-se com os outros no amor e na amizade, faz-se acompanhar de sua mãe, Santa Mónica, de seu irmão Mavígio, de seus alunos e concidadãos Trigécio e Licêncio, de seus primos Lartidiano e Rústico e de seu filho Adeodato, o mais novo dos elementos do grupo.

O motivo próximo da renúncia a uma vida agitada e mundana e a uma profissão parece ter sido uma forte dor no peito que impediria Agostinho de exercer a sua actividade. Foi talvez esta tempestade que o socorreu, desviando-o das coisas sensíveis e parte rumo ao caminho desejado.

Para além dos problemas de saúde, Santo Agostinho não terá sentido a doença como um aviso providencial? Os motivos de saúde são, com certeza, válidos, mas creio que secundários. O motivo principal da sua retirada é de ordem espiritual e religiosa.

Embora as discussões filosóficas manifestem profundas preocupações com questões relacionadas com o corpo, a alma, os vícios e a virtude, Deus, o espírito, etc., centram-se intencionalmente sobre o modo de obter a felicidade, sem que deixem de ser tratados aqueles temas, igualmente presentes nas suas reflexões,

Não espanta que o Santo tenha preferido, para uma das suas primeiras grandes reflexões, o tema da felicidade. Em todos os espíritos há um desejo universal que se manifesta de múltiplas formas e que impulsiona o homem a procurar a vida feliz, ou, de outra forma dito, o conforto repousante do seu ser. Santo Agostinho conta-nos, na sua obra De beata uita, como encontrou e realizou aquele desejo. Tão importante é este assunto que é a primeira das suas especulações, que ele não vê que mais mereça ser considerado um dom de Deus, por isso o grupo de Cassicíaco se ocupa do assunto com tanto entusiasmo.

As reflexões empreendidas em Cassicíaco revelam-nos a vontade de Agostinho em abandonar um certo tipo de felicidade terrena e de descobrir uma vida nova retirado de um certo mundo, respondendo à vocação que sentia em experimentar uma vida tendencialmente perfeita. Vida que não deixava de ressoar no íntimo da sua alma, desde a leitura de Hortensius de Cícero. Este sentimento inicial caracteriza a atitude de Agostinho como uma busca constante que o leva a auto-transcender-se e a procurar para além de si próprio.

Concretamente, em relação ao tema em análise, este movimento de auto-transcendência exerce-se no querer, no conhecer e o viver a própria felicidade. Este movimento ou desejo que leva o homem a procurar a felicidade acontece porque não é em si próprio que o homem pode encontrar o bem que o faça feliz, mas em algo que seja mais do que o próprio homem e que, por consequência, o transcenda. Esta transcendência não é, segundo Santo Agostinho, senão Deus.

Como todos os homens, Agostinho quer ser feliz. Em De beata uita ele faz um elogio à vida feliz. No entanto, não deixa de nos alertar para o facto da busca da vida feliz impor condições, uma delas exige que o homem tome consciência de si. Esta tomada de consciência, adverte ele, provoca no homem o sentimento de que está perdido, visto que fomos lançados para este mundo, um pouco ao acaso e sem orientação, por uma entidade que não sabemos bem qual é.

Perante esta situação e, até certo ponto, desconfiado da razão para lograr, por si só, o esclarecimento do caminho que pretende percorrer, Santo Agostinho far-se-á um defensor da Filosofia, entendida esta como busca e como meio para nos encaminharmos para a região sólida da felicidade. Contudo, não basta somente a prática filosófica, porque só será plenamente feliz o homem que regressar a Deus. E para regressar a Deus o homem tem que, primeiramente, conhecer a sua própria situação e, depois, dedicar-se ao conhecimento de Deus. Este parece ter sido o processo por que passou Agostinho. (continua). António Pinela, Reflexões.

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publicado por António Pinela, eFilosofia às 22:38



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