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FILOSOFIA

A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A. B. Pinela.



Segunda-feira, 13.05.13

Os valores do nosso tempo

Poder-se-á afirmar que existe uma crise de valores no nosso tempo? Anda o homem, dito moderno, em busca de uma nova moral? Como salvar a dignidade do homem e a harmonia das relações humanas?

Vivemos num tempo em que se verificam desmesurados conflitos políticos e espirituais. Esfuma-se a ideologia política, impera a lei da ‘suprema economia’, que procura, a todo o momento, reduzir a política ao ridículo. Os senhores do dinheiro ameaçam os políticos que nos governam, com a moda das deslocalizações para latitudes mais favoráveis para eles, leia-se, onde a exploração de quem trabalha é ainda maior do que nos países de origem.

Os políticos desacreditam-se uns aos outros, ofendem-se, utilizam uma linguagem patológica, e já ninguém os respeita nem neles acredita, dizendo-se com frequência que «quem não sabe fazer mais nada vai para político, onde aufere salário chorudo, fazendo pequenos gestos: como erguer-se e sentar-se durante as sessões parlamentares, aquando das votações das Leis da República».

No campo religioso, as coisas também não vão bem. Extremam-se posições e, nas grandes religiões, nem todos entendem da mesma maneira o sentido da liberdade, em geral, e da liberdade religiosa, em particular. Os fanatismos fazem o seu caminho, conduzindo à estupidificação humana e à utilização das pessoas (depois de estupidificadas) como armas destruidoras de si próprias e dos outros. É o que vemos todos os dias por esse mundo sombrio.

A globalização da economia está a destruir a humanidade. A concorrência é feroz e desleal, a tecnologia procura aliviar os factores de produção, isto é, através das novas tecnologias procura-se produzir mais com menos custos. Utilizando o maior número de meios técnicos e empregando menos pessoas, criando-se assim um exército de desempregados, cada vez maior. A miséria espreita em cada lar. Cada dia que passa vemos mais gente a passar dificuldades.

Os estrategas da economia, primeiro, criaram-nos as necessidades. Disseram-nos que era bom usarmos o telemóvel, cada vez mais sofisticado, que tem tudo, mas sendo menos telefone e mais jogos, rádio, Internet, televisão, e sei lá mais o quê! De seis em seis meses lançam no mercado novos computadores, cada vez mais sofisticados, com novo software, cada vez mais complexo, que já não corre nos computadores que temos, obrigando-nos a adquirir novas máquinas. Fazem-nos crer que temos outra personalidade se adquirirmos aquele modelo de carro agora publicitado. Dizem-nos que ficamos mais cultos e mais interessantes, se viajarmos pelo Brasil, Cuba, Costa Rica, Caraíbas, Jamaica, Porto Rico, Cabo Verde, etc., mesmo que não tenhamos dinheiro, pois os promotores das viagens fazem o favor de nos indicar quem nos paga as ditas e a estada, que pagaremos depois em suaves prestações, que nunca mais terminam… É uma festa! Amarga, muito amarga, depois!

Eles controlam o nosso dinheiro. Se desconfiam que temos algumas economias, fiquemos descansados que logo encontram a maneira de nos “torrar” esses cêntimos, não vá a gente gastá-los em inutilidades. Há sempre uma aplicação, muita boa, à nossa espera, dizem-nos nas instituições bancárias. Enfim, todos nos «darão um chouriço se lhes dermos um porco».

As famílias, fruto do novo modus vivendi, deixaram de ser o que eram. Muitos dos casais, quando se referem aos filhos, dizem: «os meus filhos», «os teus filhos» e «os nossos filhos». Três categorias de filhos sob o mesmo tecto. Tudo isto, por mais que se diga o contrário, cria muitos problemas não só para os casais, mas sobretudo para os filhos.

O país está a ficar velho, o saldo entre óbitos e a natividade é negativo. Fruto das exigências da modernidade – estudos, carreira profissional –, os jovens casam cada vez mais tarde, e vão ficando pela casa paterna, fugindo assim do “desconforto” da assunção de uma vida própria. A casa paterna continua a ser um bom lugar para se viver.

Todo este caldo da cultura hodierna faz com que muitas pessoas, os menos bafejados pelo poder da sorte, se tornem amarguradas, deprimidas, sem perspectivas de futuro, exoneradas da vida.

A dialéctica dos valores versus desvalores faz funcionar o clássico problema dos valores de um novo dia que não chega... Porque os poderosos são cada vez mais fortes, e os fracos são cada vez mais débeis. E assim, por tudo o que está dito, segundo a leitura que faço da contemporaneidade, subvertem-se os valores da vida e da humanidade. Nesta caminhada repleta de escolhos, até onde seremos capazes de chegar?

Como escreve Manuel Garcia Morente (filósofo espanhol): todo o valor tem o seu contravalor. Ao valor de conveniente contrapõe-se o valor de inconveniente (contravalor); a bom contrapõe-se mau; a generoso contrapõe-se mesquinho; a belo contrapõe-se feio; a sublime contrapõe-se ridículo; a santo contrapõe-se profano. Não há um só valor que não tenha o seu contravalor negativo ou positivo. Esta polaridade é susceptível de criar a indiferença humana por aqueles que defendem valores contrários. Tal indiferença, quando levada ao extremo, provoca rupturas, acentua desigualdades, descamba em conflitos, prolonga crises. Esta oposição é um registo constante da História, onde desfilam crises religiosas, crises económicas, crises políticas, crises sociais, numa palavra, crise das civilizações. Estas realidades da História levam-nos a questionar, o que significa afinal um mundo em crise: o fim de uma civilização, a decadência dos valores tradicionais, Estados sem rumo?

O conhecimento atento da História que nos dirá? Que os povos estiveram sempre, mais ou menos, em crise. Mas não terá que ser assim, para que se dêem passos noutros sentidos, se experimentem novas possibilidades e se inventem novas formas de estar em sociedade? As crises estão sempre mais ou menos latentes; os homens nunca estão satisfeitos com a vigência da actualidade; mas quando tudo parece correr um pouco melhor, somos confrontados com uma nova situação de crise. E se a crise que está latente demora muito tempo a emergir, há que força-la a manifestar-se vigorosamente, para que os povos vivam em desassossego permanente (veja-se, neste sentido, a acção negativa de algumas agências de notação financeira, essas entidades antidemocráticas, que têm prejudicado Estados, povos e empresas).

Nem toda a gente leva a sério ou se apercebe da crise que está instalada nos sistema de valores actuais, em toda a sua amplitude, e do caos que, eventualmente, se aproxima. Os valores económicos, os que imediatamente se fazem sentir, são subvertidos pela ganância do poder de domínio de uns tantos sobre todos, e o seu sentido sublime do direito, que é a repartição justa, está adulterado.

Notam alguns clérigos que a unidade religiosa e moral, que integra a sociedade, está a desaparecer. Como pode alguém carente de bens essenciais, de segurança no trabalho e na saúde, preocupar-se, prioritariamente, com os bens religiosos e morais?

As novas formas de vida, produto de uma sociedade altamente consumista, virada para o prazer fácil e imediato, torna o ser humano cada vez mais egoísta e distante dos outros, importando apenas o bem-estar pessoal, mesmo que o OUTRO, que é, afinal, a nossa razão de existir, seja simplesmente aniquilado pelas agruras da vida. A atitude fundamental da nova concepção de vida centra-se numa espécie de vida calculada e imediatista, sendo muito diferente dos modos de vida precedentes. Não estou a dizer que é melhor ou pior, estou apenas a analisar o que penso ser a realidade, embora tenda a considerar que tais formas de vida não conduzirão a bons resultados. Vão longe os tempos dos ideais que pugnavam pela igualdade de oportunidades, alicerçada numa vida Justa e Humanizada. (António Pinela, Reflexões).

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publicado por António Pinela, eFilosofia às 22:15



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