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FILOSOFIA

A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A. B. Pinela.



Quarta-feira, 28.06.17

Sebastião Pereira, o "jornalista" escondido

Um tal “jornalista” português, Sebastião Pereira, escondido atrás da cortina do pseudónimo, critica a governo português, num jornal espanhol, “El Mundo”, a propósito da desgraça que se abateu sobre Pedrogão Grande. Porquê sob pseudónimo?

Então, para criticar o governo é preciso esconder-se? É preciso “refugiar-se” em Espanha? Ou é falta de coragem para dizer claramente o que “Sebastião Pereira” [ou lá o que ele seja] pensa, mas que não é capaz, com receio de ser conectado com algum partido menos recomendado, no momento, em Portugal?

Esconder-se em nada ajuda a democracia.

Critique-se o que houver por criticar, esclareça-se o que houver por esclarecer, sem ambiguidades nem malabarismos jornalísticos ou políticos. O povo de Pedrogão Grande merece essa coragem e esse respeito.

Quando não somos capazes de assumir o nosso pensamento, então a liberdade e a democracia começam a anemizar (Reflexões, António Pinela).

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publicado por António Pinela, António Pinela às 15:18

Quarta-feira, 21.06.17

Politiquices com a dor alheia

Há por aí uns políticos/as - quais abutres! - que não respeitando, sequer, a dor daqueles que tantos familiares e amigos perderam, já estão a fazer política, digo: politiquice, com a desgraça alheia, pedindo já a cabeça daqueles que, eventualmente, tenham falhado em Pedrogão Grande. Arre!

Deixem o rescaldo arrefecer. Depois, no Parlamento, onde parece que estão, façam a sua CRÍTICA, ou seja:

  1. Façam uma análise clara e esclarecedora da situação,
  2. Indiquem o que correu bem,
  3. Indiquem o que falhou,
  4. Apontem sugestões: a) de prevenção para melhorar o sistema; b) de coordenação e de combate…

Provavelmente, estou a pedir muito a quem pensa que CRITICAR é dizer mal dos outros, mas não «meus lindos». A crítica é um instrumento fundamental do pensamento, sem a qual toda a retórica não passa de ‘balelas’.

Só mais uma nota: que digam também, os tais que já vieram a terreiro, e já passaram pelo governo da República, quais foram os seus contributos para melhorar o sistema de prevenção e de ataque aos fogos, que todos os anos assolam o nosso país.

Deixem-se de olhar para os vossos interesses imediatos e mesquinhos e façam política a sério (António Pinela, Reflexões).

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publicado por António Pinela, António Pinela às 16:10

Sábado, 17.06.17

Limites da liberdade

«O homem está condenado a ser livre», diz Sartre. De facto o homem é livre no seu querer e actuar, mas ele não é absolutamente livre sem limites nem restrições. Cada um vive numa situação única e concreta da sua existência, traz consigo como herança determinadas aptidões espirituais e corporais. Desde a infância está marcado pelo meio que o rodeia, pelas influências da educação, pelo ambiente espiritual, ético, religioso e ideológico em que cresce e se desenvolve; vive em determinadas circunstâncias nacionais, sociais, políticas e culturais que o marcam. Em todos estes casos está restringida a nossa liberdade: com a limitação da nossa existência finita e singular, do nosso conhecimento finito e sempre incompleto e da nossa vontade finita e reduzida a um estreito campo de acção. Tudo isto se conjuga para que a liberdade do homem só possa ser uma liberdade condicionada e limitada.
 
A autêntica liberdade, aquela que cada um vive, começa no momento em que somos capazes de entender que a minha liberdade pode e deve coexistir com a liberdade do outro. Convém não esquecer nunca que nós só somos porque existe o outro, os outros. Sem o outro o eu não existe, é um fantasma navegante, que ainda não é ser, mas está ignorantemente convencido que o é. A liberdade absoluta, do quero, posso e mando, só existe em espíritos míticos, na mente daqueles que se julgam seres superiores, cujo destino lhes terá sido traçado por um Deus maior!
 
Ora, a liberdade não é um objecto de que nos possamos apropriar de uma vez para sempre. A liberdade humana não é, de forma alguma, uma verdade eterna, nem uma posse intemporal, é pelo contrário uma verdade temporal, uma conquista sempre nova, que cada homem persegue sem nunca ter a certeza de ter atingido a sua plenitude. Quer isto dizer simplesmente que os actos dos homens de boa fé têm como último significado a procura da liberdade enquanto tal. E ao querermos a liberdade, descobrimos que ela depende inteiramente da liberdade dos outros, e que a liberdade dos outros depende da nossa (António Pinela, Reflexões)

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publicado por António Pinela, António Pinela às 15:56

Sexta-feira, 16.06.17

Liberdade implica responsabilidade

A vida humana (não a vida biológica) é vida construída, que se faz todos os dias. É uma tarefa. A vida animal tem todos os mecanismos de regulação – o sistema de instintos. Os instintos no homem são muito limitados. Em compensação, o homem tem a faculdade da imaginação, o poder mental de descobrir horizontes, a capacidade de projectar o seu percurso, de se projectar, como diria Sartre. É este pormenor que permite distinguir o que o homem é e quem é. Este simples enunciado faz a diferença.

O que o homem é procede de seus pais, avós, antepassados e dos elementos que integram o cosmos (oxigénio, hidrogénio, carbono…). Quem é o homem procede da educação, formação, cultura, hábitos, usos e costumes em que cresceu e se desenvolveu. Ora, desprovido de um sistema de instintos que regule a sua praxis, o homem decide, em cada momento da sua vida de acção, o que fazer. Com efeito, tem que optar entre múltiplas possibilidades que se lhe apresentam. A opção é um acto livre.

Se, como dizia Karl Jaspers, «o homem é um ser a caminho», é naturalmente um ser livre, como dizia Jean-Paul Sartre. Portanto, se o homem é um ser naturalmente livre, poderá renunciar à sua liberdade? Obviamente, que não.

Vejamos: se me predisponho a aceitar ou a fazer o que determinada pessoa, ou grupo, me impõe, não estarei a hipotecar a minha liberdade? É evidente que não, uma vez que decido tal predisposição. É um acto inquestionável da minha liberdade de que não posso renunciar. A liberdade é irrenunciável.

Parece confuso? Não é. Esclareça-se: em tese, digamos que há vários patamares de liberdade. Três exemplos: a) Se a vida profissional de um homem depende de outro homem, a liberdade daquele está limitada aos humores deste. Mas ele pode dizer não a todo o momento e, quando o faz, pratica um acto de liberdade, mas isso pode custar-lhe o emprego. b) O homem pode não ter recursos para a sua subsistência e isso pode fazer com que abdique de parte da sua liberdade, colocando-se à disposição de terceiros. Mas pode dizer não, nem que isso agrave mais a sua situação. c) Pode viver numa situação política que não lhe permita a liberdade de decisão, de expressão, de movimentos. Mas pode dizer não, sofrendo as consequências de tal decisão.

Nos casos indicados, como exemplos, o homem é sempre livre. A todo o momento, ele pode renunciar ao conforto de um bom emprego, pode não aceitar as migalhas oferecidas, pode estar consciente da sua atitude, mesmo que os grilhões do ditador lhe limitem os passos. Portanto, mesmo que, em casos limite, isso lhe custe a própria vida, o homem pode sempre exercer a sua liberdade. Uma coisa é ter liberdade de acção e de movimentos, outra é ser livre. Ao assim pensar estou a exercer uma atitude de liberdade, porque a liberdade é uma atitude, um acto de consciência.

Posso, num certo momento, estar privado da minha liberdade de movimentos, mas tal não significa que eu não seja um homem livre. Estar condenado, calado, ignorar ou não responder não significa estar prisioneiro, concordar ou desconhecer, mas apenas mostra a força bruta que pretende limitar a minha liberdade. Quem me condena, limita a minha acção ou me humilha pode ser menos livre do que eu. Eu posso estar preso numa cadeia e, consciente dos meus actos, sentir-me mais livre que o Juiz que me condenou. Homem livre não é, por certo, aquele que, em determinado momento, detém o poder e que, pela força e autoritarismo, oprime e limita os movimentos, as decisões, o livre arbítrio do outro; homem livre não é aquele que, sob a capa do poder e do saber, de modo ignorante e autoritário, pretende subjugar o outro, limitando-o na sua acção, humilhando-o perante os outros, como ocorre frequentes vezes.

Façam os ditadores o que fizerem, nunca conseguirão apoderar-se do OUTRO, isso é impossível. A liberdade é constitutiva do ser humano, o que faz com que o homem seja um ser responsável. Porque sou livre, sou responsável. A liberdade é um postulado da responsabilidade. Porquanto, ao saber-se responsável, o homem sente que está sujeito ao cumprimento de deveres. Para assumir os deveres inerentes à sua condição e à sua prática, o homem só pode ser livre. Se não fosse livre, como se responsabilizaria pelos seus actos? Do que está dito conclui-se que liberdade e responsabilidade caminham a par, são absolutamente inseparáveis.

Mas ao longo da história, a liberdade tem conhecido muitos adversários. São aqueles que têm temor da liberdade, tanto da sua como da dos outros. Aquele que oprime, mais tarde ou mais cedo, acaba por ser oprimido e alienar a sua própria liberdade. A História está cheia de exemplos. Cada homem só é livre e responsável se o outro também o for, na mesma medida. E a medida é coisa óptima, disse Cleobulo (António Pinela, Reflexões).

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publicado por António Pinela, António Pinela às 15:08

Quarta-feira, 14.06.17

O Estado Social é o caminho

Face às actuais políticas neoliberais, tão cantadas e elogiadas um pouco por todo o lado, que papel caberia ao estado, na sociedade contemporânea, se estas tivessem acolhimento profundo, uma vez que tais políticas tenderiam a reduzir o papel do estado a uma simples função residual?

Os neoliberais apregoam aos quatros cantos do mundo que querem menos estado e melhor estado, querendo com isto dizer que o poder de direito e de facto não deveria residir nos cidadãos, isto é, na democracia política, económica e social, mas sim teria que ser entregue aos grandes grupos financeiros e económicos, que tudo querem controlar e decidir, segundo a sua vontade. Basta ouvi-los.

Ora, cabe a todos os pensadores independentes dizer, bem alto, que a sobrevivência do Estado Social é essencial para a preservação do próprio Estado e elucidar os neoliberais que a redução do tamanho do estado até ao estado simbólico, que preconizam, conduziria à agonia das nações e dos povos, das famílias e dos cidadãos.

O Estado só pode mediar conflitos, naturais nas vivências em sociedade, se não for reduzido aos caprichos de poderosos grupos económicos, sob pena de deixar a maioria dos seres humanos à mercê dos seus caprichos e sem qualquer tipo de protecção.

Aja em vista que os grandes grupos económicos e financeiros ou não têm rosto ou raramente o têm. Os seus dirigentes mais importantes não são conhecidos, constituindo lóbis poderosos, com testas-de-ferro bem remunerados que, esses sim, em seu nome, dão a cara, tendo uns e outros no lucro o único objectivo das suas motivações.

O Estado, nas pessoas dos seus representantes, deverá ter como finalidade última não defraudar os princípios que enformam o modelo de sociedade sufragado pelos povos, de modo esclarecido, livre e democraticamente fundado.

O Estado tem que agir, criando condições para que todos usufruam do que a todos pertence. E reagir, se for caso disso. Isto é, quando qualquer tentativa de mudança, fora do modelo criado, pareça querer sobrepor-se.

Nota-se, no nosso tempo, o enfraquecimento do Estado devido àquela fórmula neoliberal: "menos estado melhor estado"! Por isso, é muito importante estar atento aos sinais que o sistema de globalização traz e reagir à menor tentativa de mudança fora dos limites que a lei constituinte consagra.

Os cidadãos do mundo não podem adormecer com os discursos muito bonitos e entusiasmantes que os ideólogos do neoliberalismo propagam. Nunca, por um só momento, deverá ser esquecido o dito popular, que diz: "fulano dá um chouriço a quem lhe der um porco". Esta máxima aplica-se à política neoliberal que tantas virtudes reconhecem na globalização da economia e da vida humana.

Com efeito o grande capital globalizado, à escala transnacional, vê, nesta política, reconhecidos os seus privilégios e reforçados os seus interesses. Se sem a alteração das Constituições Nacionais é o que se vê, tentam reduzir o povo a fragmentos, pense-se no que seria se o neoliberalismo ganhasse força política bastante e conseguisse mudar os textos constitucionais, segundo a sua vontade!

O Estado não pode abdicar da sua função reguladora dos interesses em presença. Os fortes têm sempre protecção, os fracos são sempre esmagados. Por isso, o Estado não pode permitir que os limites sejam ultrapassados. Há limites para a ganância e a sede de poder, mesmo dos pequenos poderes. Há limites para a redução do povo a mero instrumento de que os "senhores" se servem para criar a riqueza para si, sem medida. Há limites para a usurpação da dignidade dos seres humanos.

A razão de ser do Estado são as pessoas – todas as pessoas. Não apenas uma pequena minoria esclarecida, uma elite, ou um poderoso grupo económico. O principal papel do Estado é preocupar-se com o bem-estar do todo, que é a comunidade que o constitui, e não apenas com uma das suas partes. Por isso, o caminho é inevitável: reforçar o papel do Estado Social, consubstanciado na regulação dos bens vitais, nos princípios de solidariedade e na criação de igualdade de oportunidades. Se a prática política se desviar deste rumo, então o povo tem legitimidade para se opor, corrigindo os desvios,  mesmo que o poder vigente tenha resultado de eleições. (António Pinela, Reflexões)

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publicado por António Pinela, António Pinela às 22:43

Sábado, 10.06.17

Onde estão as Ideias?

«Quando muitas vezes os jornalistas dizem que não há ideias, esquecem-se de que é preciso ir procurá-las onde elas estão: no trabalho dos filósofos. E os filósofos portugueses trabalham. Talvez de uma forma demasiado silenciosa, mas trabalham. Só que - ao contrário do que se tinha a ilusão de acontecer noutros tempos - as ideias que eles produzem não se traduzem directamente em efeitos políticos. São políticas, por vezes, mas de uma forma indirecta. E por isso passam despercebidas, em tempos em que o que não é directo não tem tempo para existir. Por exemplo: um dos maiores pensadores americanos, Willard Quine, morreu há semanas. Não vi uma única linha nos jornais portugueses. É pena. Mas não será também culpa dos filósofos portugueses que não chamaram a atenção para o acontecimento? Comentando o facto com o meu amigo João Sáagua, ele dizia: «se fosse o Derrida, tinha páginas e páginas...» (Eduardo Prado Coelho, «O Fio do Horizonte», in Jornal Público, Edição de Lisboa, 16 de Fevereiro de 2001).

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publicado por António Pinela, António Pinela às 19:05

Sexta-feira, 09.06.17

Perguntaram a Dalai Lama...

"O que mais te surpreende na Humanidade?"
E ele respondeu:
"Os Homens... porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro.
E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido." (
Dalai Lama).

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publicado por António Pinela, António Pinela às 22:29

Quinta-feira, 08.06.17

Somos vistos pelo que fazemos e somos

Vivemos num tempo em que a moda é parecer ao invés de ser. Os modismos estão por aí em todos os sítios. E navega-se um pouco à espera que surja uma nova moda para que entremos nela.

Se a moda vigente é dizer palavrão, então temos todos de dizer palavrão, é de bom tom, senão ainda nos vão considerar cotas, velhos e antiquados; mas se a moda é o snobismo, há que ser snobe e, como tal, temos que, custe o que custar, pertencer ao grupo dos tios e das tias, senão não entramos na roda dos mais in; mas se a moda é o espalhafato, porque não ser espalhafatoso? Temos é que acompanhar a moda, que diabo!

Vive-se num tempo em que o que importa é parecer. Parecer bem nas artes, na música (que também é uma arte), na discussão de todos os assuntos, na política, etc. E, sobretudo, parecer aquilo que não somos. Temos é de parecer qualquer coisa, de preferência parecer melhor do que o outro, pelo menos aos nossos próprios olhos. É o que faltava não sermos o melhor, que mais não seja na nossa imaginação! Ser melhor do que o outro é a preocupação dominante. No entanto, quase sempre nos esquecemos que há sempre alguém melhor do que nós, em algum aspecto da praxis humana. Ninguém é, em termos absolutos, o melhor. Há sempre qualquer coisa que nos falta e diferencia. E é neste pormenor que reside a beleza e a complementaridade da vida. E porque não é um ser absoluto, o homem é naturalmente um ser relativo, porque limitado. Precisa, portanto, dos outros.

Aliás, ninguém pode viver, nem sequer sobreviver, sem o outro. O outro é o alimento do eu. Esclareça-se que não há eu sem que haja um tu. Esse tu é o outro, mas não um ele... Ele passa ao lado, não conta na nossa aritmética, porque está fora do nosso cálculo relacional.

A reflexão sobre o eu e o outro seria um exercício interessante para todos aqueles que se julgam senhores de uma tal presença que transborda da sua própria esfera. E é este egocentrismo que faz com que, incapazes de se olhar, gente caia no mimetismo negativo, quase sem dar por isso, uma vez que estão convencidos de que agem ética e esteticamente de modo irrepreensível!

O espírito de observação e reflexão deveria conduzir-nos a contrariar este modus vivendi. Porque não queremos ser tal como somos? Porque queremos ocupar o lugar do outro? Por mais voltas que demos, nós só somos vistos por aquilo que fazemos e somos e não por aquilo que imaginamos que os outros vêem em nós. Não raro, a diferença entre o ser que somos e o ser que pensamos ser é abissal, sem que nos demos conta de que assim é. Isto porque somos pouco dados à reflexão e, sobretudo, porque envaidecemos com o figurão que imaginamos fazer, sem nos apercebermos que estamos a ser ridicularizados às nossa próprias mãos.

Ninguém pode ocupar o lugar do outro. Cada um ocupa apenas o seu próprio espaço, o espaço que, na sua caminhada, cada um sabe construir. É este espaço que é sua pertença. «O seu a seu dono», diz o povo.

Convencionalmente, todos somos iguais; naturalmente, todos somos diferentes. Há sempre qualquer coisa que nos diferencia e distingue do outro. Até, neste aspecto, precisamos do outro. E é esta diferença específica que dá encanto e caracteriza o ser humano.

Decorre da presente reflexão que o que importa não é parecer, mas sim ser; ser como somos, com os nossos defeitos, com as nossas virtudes, com os nossos tiques, com a nossa personalidade. A grandeza de cada ser humano decorre das suas qualidades e defeitos, da sua experiência e vivências, da sua existência enquanto ser caminhante (António Pinela, Reflexões).

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publicado por António Pinela, António Pinela às 21:46

Terça-feira, 06.06.17

Contradições da natureza humana

Nem sempre somos dados à introspecção, nem a profundas reflexões. No entanto, em determinados momentos da nossa existência damo-nos conta de que estamos a pensar sobre os nossos sentimentos e os nossos actos, levados por perguntas que nos ocorrem em catadupa. São pequenas coisas, alguns obstáculos ou grandes acontecimentos de que somos protagonistas, que nos conduzem ao pensamento. E então, inicia-se um processo reflexivo que propicia o esclarecimento das nossas próprias dúvidas, iniciando-se um processo de conhecimento. Chama-se a isto filosofar.

Todos queremos encontrar um caminho para a nossa vida, porque é assim que ela faz sentido. Demoramos tempo, às vezes muito tempo, a entender esta verdade. Escondemo-nos no recôndito da nossa interioridade e não deixamos que o sentimento se mostre. É cómodo, porque a realidade envolvente nem sempre é linear.

A criatura humana, salvo raras excepções, não tem o hábito de arrumar, em si, as suas próprias vivências, as mais ricas, e dá, quase sempre, alguma ênfase ao particular, ignorando o universal. Porque em nós existe um misto de contradição: queremos e não queremos conhecer as verdades, as realidades, o que nós somos e qual a nossa relação com os outros.

Pensamos que sabemos do que se trata, que conhecemos a verdade, mas não temos coragem para enfrentar o que julgamos saber e conhecer. Falta de coragem, ou incapacidade real para entender o que nos traz a vida?

Rodeamos as coisas, andamos à volta, giramos… Mas a voz interior, aquela que é silenciosa, mas dolorosa, os sentimentos, um dia revolta-se e manifesta-se sob diversas formas: contradições, ódios, vontades, desejos, princípios… Tudo emerge em catadupa, sem controlo, em turbilhão, a tal ponto que nos tolhe a capacidade racional. E não raro, sob o efeito depressivo desse turbilhão, agimos de modo inapropriado. E sem retorno.

Os sentimentos contraditórios criam habitualmente mal-estar, desajustamento, pensamento doentio.

A vida inter-relacional que levamos, por vezes cega-nos, não nos deixando vislumbrar o que é óbvio e mais importante para cada um de nós: a paz interior.

E tudo isto, porque, não raro, não somos capazes de definir as nossas prioridades, escolher o nosso caminho, dar importância aos momentos únicos das vivências de que somos protagonistas, e deitamos tudo a perder.

Sendo tudo isto consequência de não sermos capazes de entender claramente o nosso estado emocional, nem racional. Vamos andando por um caminho aparentemente mais fácil, mas que não é o nosso, que nos pode conduzir ao abismo. Causando, com a tal atitude, sofrimento e dor a nós próprios e aos outros. Porque será assim a natureza humana? (António Pinela, Reflexões).

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publicado por António Pinela, António Pinela às 22:03

Domingo, 04.06.17

Crise das civilizações (?) e mutação de valores

Publiquei este texto em 2010, mas creio que plena actualidade:

Como escreve Manuel Garcia Morente [filósofo espanhol (1886-1942)], nos seus Fundamentos da Filosofia, todo o valor tem o seu contravalor. Ao valor conveniente contrapõe-se o valor inconveniente (contravalor); a bom contrapõe-se mau; a generoso contrapõe-se mesquinho; a belo contrapõe-se feio; a sublime contrapõe-se ridículo; a santo contrapõe-se profano. Não há um só valor, diz ele, que não tenha o seu contravalor negativo ou positivo.

Esta polaridade é susceptível de criar a indiferença humana por aqueles que defendem valores contrários e/ou contraditórios. Tal indiferença, quando foi levada ao extremo provocou rupturas, acentuou desigualdades, descambou em conflitos, prolongou crises. Contudo, esta polarização de valores é um registo constante da História. Neste sentido, recordando alguns episódios da História da Humanidade, o que vemos nós senão o desfilar de crises das civilizações e dos deuses; de períodos de pressão e de alguma tranquilidade. Assistiu-se à extinção do mundo grego e do império romano, ao nascimento da Europa de Carlos Magno e ao desmoronamento na civilização feudal; ao fulgor da expansão árabe e à retracção do predomínio dos Estados cristãos.

Adorou-se Cristo, adorou-se Maomé. Por ambos morreram homens, por ambos nasceram esperanças e se desfizeram ilusões. Em nome de um Deus infinitamente misericordioso, foram torturados hereges e não hereges, judeus e cristãos-novos. Estas visões da História levam, assim, a perguntar o que significa afinal um mundo em crise, o fim de uma civilização, a decadência dos valores tradicionais, os estados pobres. Poder-se-á dizer, que ao longo da História os povos estiveram sempre, mais ou menos, fracassados e em crise, que sempre se mostraram descontentes com os valores tradicionais e se consideravam no fim de um ciclo de civilização. Porque é uma realidade em devir, a civilização não se pode previamente definir nem limitar o seu andamento; é um processo contínuo que os homens vão vivendo, e sofrendo a sua natural e intermitente evolução. Quando o homem considerar a crise derrotada, a civilização estável, os valores imutáveis, as finanças do Estado favoráveis, então homem já não é homem, mas talvez seja uma máquina que obedecerá a qualquer outra máquina que o Homem tenha previamente criado.

A imaginação, a criação, a afirmação do homem levará fatalmente à permanente crise de valores e de civilizações. Quando houve estabilidade? Nem toda a gente leva a sério ou se apercebe da crise dos sistemas de valores vigentes e, por consequência, do caos que se vai instalando neste nosso mundo global, mas contraditório. Os valores económicos, que dominam as sociedades, são subvertidos pela ganância do poder e do dinheiro. A repartição da riqueza é adulterada. A humanidade é desprezada e vilipendiada pelos humanos.

Os homens destroem-se uns aos outros, querendo uns usufruir do trabalho que não produziram, e uns tantos dominar os restantes. As novas formas de vida, produto de uma sociedade altamente consumista, virada para o prazer fácil e imediato, torna o ser humano cada vez mais egoísta e desapegado dos outros, importando apenas o bem-estar pessoal, mesmo que o OUTRO, que é, afinal, a nossa razão de existir, seja simplesmente aniquilado pelas agruras da vida. A atitude fundamental da nova concepção de vida centra-se numa espécie de vida calculada e imediatista, sendo muito diferente dos modos de vida idealizados por sonhadores, poetas, filósofos e escritores. Vão longe os tempos dos ideais que pugnavam pela igualdade de oportunidades, uma vivência saudável, sem egoísmos nem fronteiras, alicerçada numa vida Justa e humanizada.

 António A. B. Pinela

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