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FILOSOFIA

A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A. B. Pinela.

FILOSOFIA

A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A. B. Pinela.

18.09.19

Essência da Religião 02


António Pinela

INAUGURAÇÃO BIBLIOTECA DE CARVALHAL EM 23.10.200

A religião emerge de contextos culturais específicos. Antes de se considerar o homem como um ser religioso, ele é um ser natural que, lenta e progressivamente, vai sendo aculturado. Assim, empregando uma terminologia clássica, o homem pode ser definido como animal racional (porque dotado de razão), como animal político (porque é um ser gregário que vive em sociedade), mas também pode definir-se como animal religioso (porque os valores religiosos lhe são essenciais).

Não se conhece povo que não tenha a sua religião. Desde o culto de Osíris, no Egipto, e o culto da Antiga Babilónia, 2000 a.C., onde o código de Hamurabi apresenta a teologia de Marduk como religião de Estado. Desde as diversas formas que a religião foi adquirindo na Grécia e em Roma, antes do cristianismo, o sentimento religioso tem sido inseparável do homem.

Mas a evolução da vida humana e social leva ao aperfeiçoamento da religião. E os velhos politeísmos começam a ser postos em causa, passando-se a dar maior sentido ao aspecto da imaterialidade da religião. A fé passa a ser mais subtil e mais esclarecida e, daí, decorrem as chamadas religiões superiores. Isto é, desenvolvem-se as ideias monoteístas que irão dar corpo à ideia da existência de um só Deus, criador de toda a vida, no qual se passa a acreditar.

Nas grandes religiões monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), os homens acreditam na existência de um só Deus, distinto do Mundo, transcendente e Princípio Absoluto de toda a Realidade. Deste modo, o monoteísmo marca o estado mais elaborado da religião e é tido como um processo purificador do politeísmo.

Estas três religiões comportam alguns traços comuns, como por exemplo: a semelhança na superior afirmação na existência de um só Deus; o estabelecimento na vida de uma prática moral; e o aperfeiçoamento da pessoa humana através das regras de conduta que enformam estas religiões.

A primeira religião a tornar-se monoteísta foi o Judaísmo. Para o povo Judeu, Javé (transliteração do nome de Deus) revelou-se a Moisés como Deus único e pessoal. Esta revelação encerra-se no Antigo Testamento. Registe-se que o Judaísmo foi de relevante importância para a formação das outras grandes religiões monoteístas: o Cristianismo e o Islamismo.

O Cristianismo é a religião vivida por Jesus Cristo. Para os Cristãos a Revelação de Deus está intimamente ligada à pessoa de Jesus e os Evangelhos (Novo Testamento)são o testemunho da sua vida (relato descrito pelos seus discípulos, depois da sua morte, baseado na memória dos que o tinham conhecido).

A Islamismo é a religião muçulmana fundada pelo profeta Maomé e é baseada no Alcorão ou Corão, livro sagrado do Islão que lhe foi revelado por Alá (ou Allah), o seu Deus.

Dito isto, que é então a religião? A etimologia tradicional faz derivar a palavra religião do latim: religio, religare (religar, ligar bem), o que nos permite afirmar que a religião é, assim, uma ligação (ou reunião) entre as pessoas.

Consequentemente, a religião pode, portanto, definir-se como um sistema de crenças (dogmas) e de práticas (ritos) relativos ao sentimento da divindade (ou realidade sagrada), que une na mesma comunidade moral (Igreja) todos aqueles que a ela aderem.

Todas as religiões  (as mais importantes) estão fundadas sobre uma revelação, cuja condição histórica pode ser a história exemplar de um povo (Judaísmo), ou de um profeta, cujos ensinamentos e modelo ideal de vida são conservados pela tradição (Cristianismo, Islamismo).

Os dogmas religiosos significam a doutrina estabelecida dentro de uma religião, aceite e seguida pelos seus membros e determinam que a Igreja ensina em nome de Deus e da Revelação. Os dogmas, assim entendidos, são sinónimos de verdades reveladas, porque são objecto da fé, impostas pela autoridade da Igreja e aceites sem crítica nem exame. Eles são apresentados como irrefutáveis porque foram criados por inspiração de Deus, ser sobrenatural que os homens devem adorar. É através dos ritos, conjunto de cerimónias prescritas para a celebração do culto, que, normalmente, os homens adoram a Deus, em local designado Igreja que congrega os fiéis ligados pela mesma fé.

Que procuram os crentes através das práticas religiosas? À semelhança de outras práticas humanas, a religião procura dar respostas a problemas fundamentais que sempre têm impressionado a humanidade. Sabemos que a Filosofia se interroga acerca da origem do Homem e do Cosmos, do sentido da vida e do nosso destino, da imortalidade da alma ou da vida eterna, etc. Estas são preocupações que também sensibilizam, embora de modo diferente, a Religião. Enfim, através da religião o homem procura as respostas – que o satisfaçam – que à luz da razão não são fáceis de entrever. Deste modo, o homem precisa de recorrer a uma entidade superior que o ampare na angústia e na dúvida, que o conforte na dor e no desespero.

A influência da religião, pelas suas características, faz-se sentir a todos os níveis da praxis humana. Consoante os quadrantes culturais, a sua intervenção é sentida a nível político, económico, cultural e social. Assim sendo, e dada a sua influência na vida dos povos, os mais lúcidos deveriam, não servir-se dela para alcançar os seus próprios objectivos, mas denunciar os oportunistas  que, em seu nome, a utilizam para fins que não sejam aqueles que a sua essência determina. (António Pinela; Reflexões).

Outros textos: www.eurosophia e no Blog

09.09.19

Glossário de Ciências e Educação


António Pinela

glossário ciências da educação.jpg

Este glossário é o resultado de pesquisa efectuada, no âmbito da orientação pedagógica /estágio, em várias obras de índole pedagógica e didáctica, de psicologia e sociologia, e ainda de Legislação sobre a Reforma Educativa, publicada desde os anos 80, do século passado. Este texto pretende ser, apenas, uma ajuda rápida da terminologia aplicada ao ensino.

Exemplos de algumas entradas:

A

ACÇÃO

Efectivação da capacidade de agir. No domínio pedagógico e educativo, a acção é geralmente a influência exercida por um ser sobre outro ser, nomeadamente pelo professor sobre a criança ou o aluno, com a finalidade de o fazer atingir certas metas ou de o levar a adoptar certos comportamentos ou condutas, nos planos físico, intelectual, moral, estético e social, etc. Mais particularmente, um ensino pela acção propõe-se fazer agir o aluno sobre as coisas, para lhe dar acesso ao conhecimento e à formação do espírito.

ACTIVIDADE

Faculdade de agir, capacidade de actuar. Mais especificamente: 1. Actos motivados de um indivíduo com o objectivo de produzir um resultado pela coordenação de intervenções dinâmicas, de ordem física e psíquica. 2. Trabalho proposto ao aluno com a finalidade de o fazer alcançar, a curto, médio ou a longo prazo, objectivos precisos, específicos ou gerais: aquisição de conhecimentos; formação do juízo; aprofundamento da reflexão; aperfeiçoamento manual ou intelectual; escolha de iniciativas; treino para o trabalho de grupo; desenvolvimento pessoal e do sentido social, etc.

C

CONHECIMENTO

Na linguagem corrente, designa-se por conhecimento a simples identificação de alguma coisa ou de alguém, e a evocação da informação adquirida sobre um assunto. Num sentido mais preciso, reserva-se a palavra conhecimento para a compreensão exacta e completa dos objectos, por meio do conhecimento científico. Este é o saber seguro acerca de determinada situação objectiva, e resulta da relação entre sujeito e objecto; nesta perspectiva, a função do sujeito consiste em apreender o objecto tornando-o presente a si próprio, enquanto a função do objecto é a de se deixar apreender, dando conteúdo ao que é apreendido pelo sujeito. A experiência de cada um mostra que há, para o homem, dois modos de conhecimento: o conhecimento sensível, que é singular e concreto, dependendo a sua apreensão dos órgãos sensoriais – é um tipo de conhecimento imediato; e o conhecimento intelectual, que é universal e abstracto, dependendo unicamente da razão – é um tipo de conhecimento mediato.

E

ÉDIPO

Herói da mitologia grega, filho de Laio, rei de Tebas, e de Jocasta. Segundo o oráculo, Édipo havia de matar o pai e casar com a mãe. Fugiu, por isso, da sua pátria, para que tal profecia se não cumprisse, mas em vão. Sófocles tratou o tema em duas tragédias imortais: Édipo-Rei e Édipo-Colono. Complexo de Édipo: nome dado por Freud ao suposto apego da criança ao progenitor do sexo oposto, recalcado pelo conflito ambivalente com o genitor do mesmo sexo, simultaneamente amado, odiado e temido.

EDUCAÇÃO

Conhecimento e prática dos hábitos sociais; boas maneiras. Sentido lato: processo pelo qual uma função se desenvolve e se aperfeiçoa pelo próprio exercício. Por exemplo: «educação dos sentidos». Sentido pedagógico: Conjunto dos processos pelos quais são metodicamente desenvolvidas as faculdades da criança, do adolescente, do jovem e do adulto.

I

INTERDISCIPLINARIDADE

Interacção existente entre duas ou várias disciplinas; esta interacção pode ir da simples comunicação das ideias até à integração mútua dos conceitos directores, da epistemologia, da terminologia, da metodologia, dos dados e da organização da pesquisa e do ensino que a eles se ligam. Esta interacção estabelece uma relação entre várias disciplinas que leva ao seu enriquecimento recíproco e logo a uma transformação de seu quadro de investigação e de acção. O estímulo para a interdisciplinaridade é sempre um problema de explicação; a interdisciplinaridade nasce da exigência de individualizar estruturas mais profundas referentes aos fenómenos estudados por cada disciplina, que sejam capazes de explicá-los com maior coerência e consideração [cf. multi-, pluri- e transdisciplinaridade].

V

VERIFICAÇÃO
Controlo da verdade de uma teoria, de uma afirmação. A verificação é o terceiro momento do método experimental, segundo J. Stuart Mill, o primeiro é a observação, o segundo a "indução", ou formulação da hipótese. A verificação consiste em considerar todos os casos possíveis de hipóteses explicativas que se tenham formulado: é o momento da «experimentação», cuja finalidade é definir as relações necessárias e constantes entre os fenómenos, a partir das quais se estabelece a lei científica.

 

01.09.19

A razão universal em Álvaro Ribeiro


António Pinela

razão universal em álvaro ribeiro.jpg

O estudo da obra, A Arte de Filosofar, de Álvaro Ribeiro, sugeriu-nos que centrássemos a nossa atenção em alguns temas específicos que nos despertaram interesse, desde logo a eventual hipótese de a língua portuguesa ser ou não apta para expressar o inquérito filosófico. Interro­gámo-nos, então, por que razão a nossa língua não seria própria para transmitir os pensamentos mais profundos?

O problema, assim o entendimento, não está directamente rela­cionado com a potencialidade da língua portuguesa, mas sim prende-se com a divulgação da mesma e das obras dos autores portugueses.

Num passado não muito distante, os pensadores portugueses tive­ram grandes dificuldades em fazer ouvir a sua voz. As editoras preferiam publicar obras que lhes garantissem o lucro certo, daí que a ficção (contra a qual nada temos) levasse a dianteira relativamente a outro tipo de traba­lhos, como, por exemplo, artísticos, filosóficos ou científicos. (…)

No entanto, os tempos mudaram e hoje já podemos ler e apreciar filosofia e ciência escritas em português por portugueses. Já se ultrapas­sou a fase das publicações esporádicas e algumas obras de autores portu­gueses também já se traduzem em outras línguas. O que significa que, afinal, a língua portuguesa é, como defende Ribeiro, tão capaz como as outras para expressar o pensamento filosófico. Nem faria sentido que as­sim não fosse, visto que os portugueses têm traduzido centenas de obras e têm demonstrado capacidades para tal.

O idioma português é, portanto, tão apto como os outros (o inglês, o francês ou o alemão) para comunicar a história, as ideias ou a razão humana dos povos que falam esta língua. E é tanto mais apto quanto mais respeitarmos o espírito do próprio idioma e deixarmos de imitar avassala­doramente o que é próprio e intrínseco de outros idiomas.

Não há, disso estou convencido, razões para negar à língua portuguesa a capacidade de se expressar em qualquer modalidade de co­municação, seja oral ou escrita; seja artística, filosófica, religiosa ou cien­tífica.

Estou, no entanto, de acordo quanto à complexidade da lingua­gem. Mas estas dificuldades não são específicas da língua portuguesa, di­zem respeito a todas, na medida em que a língua é o que há de mais co­mum, mais universal, a par da razão humana, numa comunidade lin­guís­tica.

É para nós um dado adquirido a validade e universalidade da lín­gua portuguesa. O que se pode questionar, como alertava Ribeiro, é o va­lor do discurso (como em qualquer idioma) e se este tem sentido. Há, por isso, que averiguar se as palavras ou frases ditas ou escritas têm signifi­cado ou se são desprovidas de valor ontológico, transmitindo apenas va­cuidades.

As palavras ou frases ocas não podem transmitir valores univer­sais, quanto muito transmitirão ilusões, principalmente para os próprios que as pronunciam. É por isso que Ribeiro dá muita importância à signi­ficação das palavras e opõe-se determinantemente aos positivistas, por estes pretenderem reduzir, no plano científico, as palavras a símbolos, ainda que a linguagem natural exprima melhor o valor da ciência.

Contudo, as mesmas palavras são susceptíveis de transmitir vários sentidos, o que pode introduzir alguma perturbação no sentido lógico das mesmas. Para obviar estas situações, os pensadores que reflectem sobre a vida e o sentido das palavras descobrirão, quanto possível, o valor co­municante de cada uma.

A diversidade de sentidos que as palavras conquistam não é de todo negativa, na medida em que é da atribuição de novos sentidos ou de mais sentido às palavras que emergem novas ideias. É interessante pensar-se na possibilidade de, com as mesmas palavras, dizer-se coisas diferen­tes ou novas. Quando tal ocorre estamos perante a criatividade e a inteli­gência significativas. (…)

Esta realidade ou inteligência superior não a podemos conhecer do mesmo modo que conhecemos as coisas ou a sua natureza, referimo-nos obviamente a conhecimento de Deus. É verdade que a razão é uma faculdade universal do homem e pode alcançar o conhecimento de Deus, mas somente por inferência, como escreve Ribeiro. Neste sentido, como já foi dito, o conhecimento de Deus não é directo, mas sim opera-se a partir do que podemos conhecer directamente, se admitirmos que o que é conhecido é produto da sua criação. Mas se algo é ou está criado, como negar a existência do seu criador? (…)

António Pinela