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FILOSOFIA

A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A. B. Pinela.

FILOSOFIA

A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A. B. Pinela.
01.03.20

Aprendizagem da Filosofia


António Pinela

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A ideia de escrever um texto sobre filosofia, num registo mais iniciático, relaciona-se com dificuldades manifestadas por alguns aprendizes de filosofia, na compreensão do sentido da disciplina ou, melhor dito, dos sentidos que esta envolve.

Diziam-me aqueles aprendizes que estudavam, estudavam… e que até “tiravam” boas notas, mas que, mesmo assim, sentiam dificuldade de explicar, com convicção, o significado desta disciplina. Sabiam o que é a Matemática e para que serve; sabiam que o estudo do Português lhes permitiria um melhor entendimento dos textos que liam ou ouviam, ao mesmo tempo que lhes ensinava a desenvolver uma escrita mais compreensiva; enfim, sabiam que a Geografia permitir-lhes-ia conhecer diversas regiões, povos e culturas. Mas saber o que é a filosofia, para que serve, que nos ensina, é assunto que aqueles alunos tinham dificuldade em compreender na sua amplitude e, depois, esclarecer. Argumentavam que estavam habituados a ler textos com conteúdos mais objectivos, não sendo preciso reflectir muito sobre os mesmos.

Ora bem, como ponto de partida, o aprendiz de filosofia deverá estar predisposto para a apreensão da dimensão do pensamento filosófico, o sentido da reflexão, o gosto pelo saber. É preciso ter presente que esta disciplina é um pouco diferente das restantes; não se aprende com uma breve leitura; requer análise, reflexão, questionamento; requer que se tome posição sobre a vida, os acontecimentos e o mundo. E requer também que o ser filosofante olhe para além de si mesmo.

É comum dizer-se que as disciplinas que constituem os curricula do Ensino Secundário não oferecem grandes dificuldades de estudo, embora sejam indicadas a Matemática e o Português como sendo matérias um pouco mais difíceis. Mas os meus alunos afirmavam que talvez não fosse bem assim, porque, diziam, “estas disciplinas são mais delimitadas e concretas que a filosofia”; ao lerem um livro ou um manual de uma daquelas matérias, acrescentavam, ficavam a saber de que conteúdo se tratava, logo à primeira, mas com a filosofia tinham algumas dificuldades, lamentavam-se.

Verbalizavam que a “filosofia exige que se leia muito, que alguns textos são extensos e complicados, que temos que conhecer grande número de conceitos, de definições…” Além disso, esta cadeira “obriga-nos a pensar sobre assuntos que antes não abordámos; temos que estar atentos às temáticas e reflectir sobre coisas que nos eram completamente alheias e que, talvez, não nos venham a interessar; como isso da ontologia, da metafísica, da fenomenologia, da lógica; temos que estudar os valores, como a ética, a estética, a religião; e temas como o direito, a política, a justiça, a liberdade, a responsabilidade, mas também o conhecimento e o ser, e tantos outros assuntos que anteriormente não estudámos, nem sequer fizemos qualquer aproximação”.

 “Que utilidade nos traz para a vida, saber tudo isto?” Interrogavam-se. E prosseguiam: “sabemos que a prática da Educação Física serve para educar o corpo, o estudo da Biologia permite-nos conhecer o corpo humano, mas a filosofia, qual a sua utilidade, de que fala, para que serve?”.

Tentar esclarecer estas e outras questões análogas é a tarefa que me proponho desenvolver nas páginas seguintes. Sei que ficarão muitas dúvidas por explicar, e com a reflexão que o leitor fará, surgirão outras que o “obrigarão” a novas reflexões sobre o que lê e sobre as dúvidas que vão brotando no seu espírito. Se assim acontecer, eis que está no caminho certo rumo à filosofia. Será de alguma utilidade partir à descoberta de uma disciplina (ou aprofundamento da mesma) em que os seus ensinamentos, que mais não seja, permitirão compreender os meandros do pensamento filosófico, cujas raízes se “perdem” no tempo, mas que a tradição regista desde os finais do século VII a.C., princípios do VI a.C., sendo um dos pilares primordiais da Cultura Ocidental.

 Termino [este texto] com a pergunta que já formulei acima: “para que serve a filosofia”? E respondo propositadamente, e de modo simples: “para educar o espírito”. [Se estiver interessado] terá ocasião de analisar outras vertentes, no decorrer da leitura deste texto.

António A. B. Pinela, Pata que serve a Filosofia, www.eurosophia.com, 2010, pp.13-16.