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FILOSOFIA

A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A. B. Pinela.

FILOSOFIA

A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A. B. Pinela.

01.09.19

A razão universal em Álvaro Ribeiro


António Pinela

razão universal em álvaro ribeiro.jpg

O estudo da obra, A Arte de Filosofar, de Álvaro Ribeiro, sugeriu-nos que centrássemos a nossa atenção em alguns temas específicos que nos despertaram interesse, desde logo a eventual hipótese de a língua portuguesa ser ou não apta para expressar o inquérito filosófico. Interro­gámo-nos, então, por que razão a nossa língua não seria própria para transmitir os pensamentos mais profundos?

O problema, assim o entendimento, não está directamente rela­cionado com a potencialidade da língua portuguesa, mas sim prende-se com a divulgação da mesma e das obras dos autores portugueses.

Num passado não muito distante, os pensadores portugueses tive­ram grandes dificuldades em fazer ouvir a sua voz. As editoras preferiam publicar obras que lhes garantissem o lucro certo, daí que a ficção (contra a qual nada temos) levasse a dianteira relativamente a outro tipo de traba­lhos, como, por exemplo, artísticos, filosóficos ou científicos. (…)

No entanto, os tempos mudaram e hoje já podemos ler e apreciar filosofia e ciência escritas em português por portugueses. Já se ultrapas­sou a fase das publicações esporádicas e algumas obras de autores portu­gueses também já se traduzem em outras línguas. O que significa que, afinal, a língua portuguesa é, como defende Ribeiro, tão capaz como as outras para expressar o pensamento filosófico. Nem faria sentido que as­sim não fosse, visto que os portugueses têm traduzido centenas de obras e têm demonstrado capacidades para tal.

O idioma português é, portanto, tão apto como os outros (o inglês, o francês ou o alemão) para comunicar a história, as ideias ou a razão humana dos povos que falam esta língua. E é tanto mais apto quanto mais respeitarmos o espírito do próprio idioma e deixarmos de imitar avassala­doramente o que é próprio e intrínseco de outros idiomas.

Não há, disso estou convencido, razões para negar à língua portuguesa a capacidade de se expressar em qualquer modalidade de co­municação, seja oral ou escrita; seja artística, filosófica, religiosa ou cien­tífica.

Estou, no entanto, de acordo quanto à complexidade da lingua­gem. Mas estas dificuldades não são específicas da língua portuguesa, di­zem respeito a todas, na medida em que a língua é o que há de mais co­mum, mais universal, a par da razão humana, numa comunidade lin­guís­tica.

É para nós um dado adquirido a validade e universalidade da lín­gua portuguesa. O que se pode questionar, como alertava Ribeiro, é o va­lor do discurso (como em qualquer idioma) e se este tem sentido. Há, por isso, que averiguar se as palavras ou frases ditas ou escritas têm signifi­cado ou se são desprovidas de valor ontológico, transmitindo apenas va­cuidades.

As palavras ou frases ocas não podem transmitir valores univer­sais, quanto muito transmitirão ilusões, principalmente para os próprios que as pronunciam. É por isso que Ribeiro dá muita importância à signi­ficação das palavras e opõe-se determinantemente aos positivistas, por estes pretenderem reduzir, no plano científico, as palavras a símbolos, ainda que a linguagem natural exprima melhor o valor da ciência.

Contudo, as mesmas palavras são susceptíveis de transmitir vários sentidos, o que pode introduzir alguma perturbação no sentido lógico das mesmas. Para obviar estas situações, os pensadores que reflectem sobre a vida e o sentido das palavras descobrirão, quanto possível, o valor co­municante de cada uma.

A diversidade de sentidos que as palavras conquistam não é de todo negativa, na medida em que é da atribuição de novos sentidos ou de mais sentido às palavras que emergem novas ideias. É interessante pensar-se na possibilidade de, com as mesmas palavras, dizer-se coisas diferen­tes ou novas. Quando tal ocorre estamos perante a criatividade e a inteli­gência significativas. (…)

Esta realidade ou inteligência superior não a podemos conhecer do mesmo modo que conhecemos as coisas ou a sua natureza, referimo-nos obviamente a conhecimento de Deus. É verdade que a razão é uma faculdade universal do homem e pode alcançar o conhecimento de Deus, mas somente por inferência, como escreve Ribeiro. Neste sentido, como já foi dito, o conhecimento de Deus não é directo, mas sim opera-se a partir do que podemos conhecer directamente, se admitirmos que o que é conhecido é produto da sua criação. Mas se algo é ou está criado, como negar a existência do seu criador? (…)

António Pinela

 

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