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FILOSOFIA

A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A. B. Pinela.


Quarta-feira, 08.08.18

Em que estás a pensar?

«Em que estás a pensar?» Pergunta-nos o Facebook, quando acedemos à nossa página.
Em Sócrates, o filósofo. Disse para comigo.
E porquê Sócrates? Interrogar-me-á o leitor.
Lembrei-me da sua sabedoria que parte da nesciência: “SÓ SEI QUE NADA SEI”. Mas logo acrescentava o filósofo: “NO ENTANTO SUPERO A GENERALIDADE DOS HOMENS QUE NEM ISSO SABEM”.

Moral da história: é uma pena que nem todos sejamos capazes de reconhecer a nossa própria ignorância. Quando isto acontece, tornamo-nos arrogantes, incapazes de reconhecer as nossas limitações. Tornamo-nos soberbos, rudes e até anti-sociais.
No entanto, está no nosso querer mudar o nosso comportamento, e sair do pedestal em que julgamos (por ignorância) estar alcandorados. NUNCA É TARDE PARA BURILAR O NOSSO COMPORTAMENTO.

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publicado por António Pinela, António Pinela às 21:41

Sexta-feira, 02.06.17

TODOS SOMOS FILÓSOFOS

A Filosofia está ao alcance do entendimento comum, para que possa servir de orientação a quem dela carece directamente, embora os grandes desenvolvimentos estejam, de certo modo, "reservados" a especialistas, os filósofos, aqueles que tudo questionam, fazendo dessa forma avançar o conhecimento para uma melhor compreensão do mundo. Neste nível de reflexão está em causa pensar o que envolve a humanidade. Antevir, nesta dimensão do pensamento, requer persistência e coerência conceptual, o que não se experimenta num relance fugaz ou entusiasmo passageiro.
 

A contemplação filosófica liberta o pensamento do homem, tornando-o imparcial nas suas apreciações, com a finalidade de alcançar a verdade. Ao pugnar pela verdade, a contemplação amplia os nossos horizontes e esclarece os objectos da nossa acção e do nosso afecto, torna-nos homens mais conscientes, direcciona-nos para a prática de uma verdadeira libertação humana. Mas sendo contemplação, a Filosofia não está desligada da vida. Sem deixar de ser teórica, ela é também prática, tendo como sua preocupação contribuir para melhorar a existência humana.
 

Aquele que se afasta da vida quotidiana, das injustiças que ferem o mundo actual, da miséria e da pobreza criada pela ganância, pela ambição desmedida e pela cegueira do poder; aquele que não é capaz de um gesto contemplativo, que considera banalidades a metafísica, as ideias, ou mesmo o mistério divino, não é nem pode chegar a ser filósofo, nem será alguém feliz. O filósofo começa por ser aquele que se preocupa com todas estas situações, questionando-as permanentemente, visando a sua elucidação; e assim agindo, desenvolve a sua actividade criadora, cujo objectivo fundamental é contribuir para a libertação deste mundo das injustiças dos tiranos, gritando bem alto que o rei vai nu. Portanto, o filósofo bate-se contra os preconceitos, pela autonomia da razão; é aquele que, pela reflexão crítica, esclarece o seu pensamento e toma posição perante o mundo e a vida, procurando incessantemente o caminho da justa medida.


«Todos somos filósofos», diz Gramsci. No entanto, temos de distinguir o "filósofo" que todos somos, que ocasionalmente filosofa espontaneamente, do filósofo que sabe do ofício, o filósofo intencional, que concebe uma visão do mundo e da vida, que incessantemente persegue a busca de fundamentos para as suas ideias, princípios e concepções, que toma posição crítica sobre tudo o que ocorre. Enfim, o filósofo é o profissional que luta contra os preconceitos, o que está estabelecido, os dogmatismos e cepticismos, o laxismo e o facilitismo, procurando elucidar, por meio da reflexão, todos estes estados de espírito.

 

«Talvez possa dizer-se, esquematicamente, que o filósofo é aquele que mais pergunta, enquanto o sábio é o que mais e melhor sabe responder. Trata-se de dois perfis, não raramente coincidentes, mas que demarcam duas posturas ou posições que não devem confundir-se. Nos seus respectivos limites, o primeiro levar-nos-á ao ponto Ómega e aos confins do universo, enquanto o segundo nos conduzirá à supermecanização e automatização da vida e da sociedade.» (Romeu de Melo, In Diário de Notícias, de 26/12/87).

 

Ora, se o filósofo é aquele que ama, que procura a sabedoria, e se filosofar é estar a caminho, é a marcha do pensamento vivo, para se saber o que é a Filosofia tem que se fazer uma tentativa. Só então a Filosofia será simultaneamente a marcha do pensamento e a consciência desse pensamento.
 

A Filosofia não é, portanto, uma amálgama de teses sem relação, um conjunto de ideias desarticuladas. A Filosofia é um estado de alma, um produto da inteligência humana. Se a Filosofia é um estado da alma humana, o filósofo é aquele que se bate pela autonomia da razão; é aquele que, pela reflexão crítica, esclarece o seu pensamento e toma posição perante o mundo e a vida, procurando incessantemente o caminho da verdade. (António A. B. Pinela, Horizontes da Filosofia ).

Visite também: www.eurosophia.com

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publicado por António Pinela, António Pinela às 22:06

Quinta-feira, 18.06.15

PENSAMENTO CONVERGENTE VERSUS PENSAMENTO DIVERGENTE

Nota preliminar: A propósito de alguns comentários ao meu post, publicado no dia 16.06.2015: «QUE FALTA VENDER EM PPORTUGAL», entendi que não seria despropositado reeditar, hoje, um texto que escrevi em 2004.

Quem não está connosco está "contra-nosco"». Lembram-se desta frase, que foi pronunciada em Almada, em 1975? Já lá vão trinta anos, mas ainda há muita gente que pensa assim! Para estes não pode haver alternativa. Psicologicamente, denomina-se a este modo de pensar, «pensamento convergente».

É um modo de pensamento orientado para a obtenção de uma única resposta a uma situação. O ser pensante, colocado perante um problema, submete-se a instruções rígidas no sentido de encontrar uma única solução. O seu comportamento é conformista, prudente, rigoroso, mas limitado.

Explicitando, toda a forma de pensar, dos diversos actores, obedece à ordem de comando, daquele que, ocasionalmente, lidera o grupo.

Quem se atrever a pensar diferente, mesmo que o seu pensamento enriqueça os pensamentos anteriores, mesmo que tal pensamento seja lúcido e traga mais-valia, não poderá ser contemplado, porque isso iria contra os ditames do líder e este sentir-se-ia fragilizado, porque o pensamento vencedor não teria sido o seu. E o chefe tem que ter pensamentos...

Todavia, o pensamento convergente, que parecendo muito objectivo, acaba por encaminhar-se para o unanimismo. Logo, é um pensamento ortodoxo, dogmático, não criativo, autoritário. E, por consequência, os defensores deste tipo de pensar, radicalizam-se, não aceitam o debate e, muito menos, a troca de ideias, porque as suas, mesmo que vazias de conteúdo, são sempre as melhores. É a incapacidade de reconhecer que o outro, por mais humilde que seja a sua posição social ou profissional, pode ter rasgos de elevada reflexão e de produção de ideias. Tais sumidades convencem-se que aos olhos dos outros, mas sobretudo a seus olhos, são a luz que ilumina as trevas! A tais, eu recomendaria uma reflexão sobre a célebre frase que imortalizou Sócrates, o pai da Filosofia: «Só sei que nada sei».

Ao invés do pensamento convergente, proponho o pensamento divergente, pensamento criador, mensurável através da resposta a problemas deste tipo: «Que uso se pode fazer de um Posto Público de Internet?» A pessoa, colocada perante o problema, procura todas as soluções possíveis, não se limitando à conformação de uma solução já experimentada, desenvolve as suas respostas por meio de ensaios e erros, por aproximação experimental.

Mas não termina aqui a sua tarefa. Encontrada a sua resposta, há agora que a confrontar com as demais respostas e aceitar, sem melindres, a melhor solução para o problema em análise. É assim que o conhecimento cresce e os problemas se resolvem. É isto o pensamento divergente.

Pensamento que inova, pensamento aberto, receptivo a aperfeiçoamentos, que não menospreza os contributos seja de quem for, que aproveita as experiências exteriores, o que elas têm de enriquecimento para o objectivo do nosso trabalho. Por que não acolher experiências fundamentadas ao longo de carreiras profissionais? Por que menosprezar o saber de estudo e de experiências feito por pessoas que sabem mais do que nós em determinadas valências e vivências?

Não tenhamos dúvidas, podemos conhecer muito bem determinada matéria, mas, é bom não ignorar, para bem do conhecimento e da resolução das situações, que há sempre alguém que sabe um pouco mais do que nós, em determinado assunto específico. É este um princípio essencial da humildade do saber.

António Sérgio (filósofo e ensaísta português) recomendava, na qualidade de aprendiz mais velho, que não fizéssemos uma só leitura, que escutássemos o que os outros têm para dizer, que não menosprezássemos a sabedoria alheia... e, então, decida (António Pinela, Reflexões, Outubro de 2004)

 

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publicado por António Pinela, António Pinela às 22:29

Sábado, 18.05.13

Contradições da Natureza Humana

Nem sempre somos dados ao pensamento, nem a profundas reflexões. No entanto, em determinados momentos da nossa existência damo-nos conta de que estamos a pensar sobre os nossos sentimentos e os nossos actos, levados por perguntas que nos ocorrem em catadupa, desorganizadas. São pequenas coisas, alguns obstáculos ou grandes acontecimentos de que somos protagonistas, que nos conduzem ao pensamento. E então, inicia-se um processo reflexivo que propicia o esclarecimento das nossas próprias dúvidas, iniciando-se um processo de conhecimento. Chama-se a isto filosofar.

Todos queremos encontrar um caminho para a nossa vida, porque é assim que ela faz sentido. Demoramos tempo, às vezes, muito tempo, a entender esta verdade. Escondemo-nos no recôndito da nossa interioridade e não deixamos que o sentimento se mostre. É cómodo, porque a realidade envolvente nem sempre é linear.

A criatura humana, salvo raras excepções, também, nem sempre, tem o hábito de arrumar, em si, as suas próprias vivências, as mais ricas, dando, quase sempre, algum relevo ao desarrumado, e com isso, perdendo muito da sua vivência mais rica. E porquê? Porque em nós existe um misto de contradição: queremos e não queremos conhecer a realidade, a verdade, ou seja, o que nós somos e qual a nossa relação com o mundo que nos rodeia.

Pensamos que sabemos do que se trata, que conhecemos a verdade, mas não temos coragem para enfrentar o que julgamos saber e conhecer. Falta de coragem, ou incapacidade real para entender o que nos traz os obstáculos da vida?

Rodeamos as coisas, andamos à volta, giramos… Mas a voz interior, aquela que é silenciosa, mas dolorosa, os sentimentos, um dia revolta-se e manifesta-se sob diversas formas: contradições, ódios, vontades, desejos, princípios… Tudo emerge em cascata, sem controlo, em turbilhão, a tal ponto que nos tolhe a capacidade racional. E não raro, sob o efeito depressivo desse turbilhão, agimos de modo inapropriado. E sem retorno.

Os sentimentos contraditórios criam habitualmente mal-estar, desajustamento, pensamento débil.

A vida irreflectida, que deixamos acontecer, é por vezes mais fácil, mas pode cegar-nos, levando-nos a perder a lucidez que permitiria fazer vislumbrar o que é óbvio e mais importante para cada um de nós: a paz interior.

E tudo isto, porque, não raro, não somos capazes de definir as nossas prioridades, escolher o nosso caminho, dar importância aos momentos únicos das vivências de que somos protagonistas, e deitamos tudo a perder.

Sendo este acontecer consequência de não sermos capazes de entender, claramente, o nosso estado emocional, nem racional. Vamos andando por um caminho aparentemente mais aveludado, mas mais traiçoeiro, que nos pode conduzir ao abismo, porque este não é nosso caminho. Causando, com a tal atitude, sofrimento e dor a nós próprios e aos outros. Porque será assim a natureza humana? (António Pinela, Reflexões)

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publicado por António Pinela, António Pinela às 22:47

Terça-feira, 14.05.13

O estudo da Filosofia

Nota: Este texto não é para especialista.

«A Filosofia é (...) a actividade mais natural do homem e o inquérito filosófico o mais caracteristicamente humano».

Rafael Gambra

Ao longo do estudo da Filosofia, aperceber-se-á que esta disciplina deverá ser vivida, isto é, deverá ser estudada, e não memorizada ou «cabulada». A vivência da Filosofia faz-se em contacto com os textos dos filósofos – do professor da disciplina, os textos que integram os manuais e as obras recomendadas.

Pouco vale memorizar meia dúzia de conceitos para impressionar o seu interlocutor – professor, amigo, colega ou familiar – para mostrar que já sabe!

O saber constrói-se passo-a-passo, ouvindo, lendo, reflectindo, experimentando, debatendo, explicando, pondo à prova. Porquanto, para sedimentar e aprofundar os seus conhecimentos, nesta disciplina, leia os textos e as obras recomendadas pelo seu professor, indicadas nos manuais ou em outras obras.

Com efeito, «Todo o Homem enquanto homem filosofa. Mas a coerência conceptual do que esta afirmação implica não se alcança de modo algum num rápido relance. O pensamento filosófico sistemático requer estudo.» (Karl Jaspers, Iniciação filosófica, Lisboa, Guimarães & C.ª Editores, 1976).

Como estudar Filosofia?

Como deverá, então, iniciar-se o estudo da Filosofia? Deverá o aluno estudar as ideias e concepções filosóficas dos grandes filósofos e considerá-las como suas? Deverá, antes, aprender (memorizar) conceitos e mostrar que os sabe quando solicitado? Ou, pelo contrário, deverá o iniciado no estudo desta disciplina tentar compreender e apreender os grandes temas que preocuparam e preocupam os filósofos, reflectindo sobre eles, a fim de lhe apreender o sentido?

«Ao aprendiz de filósofo [ao jovem aprendiz, pretendo eu dizer, e na minha qualidade de aprendiz mais velho] rogo que se não apresse a adoptar soluções, que não leia obras de uma só escola ou tendência, que procure conhecer as argumentações de todas, e que queira tomar como primário escopo a singela façanha de compreender os problemas: de compreendê-los bem, de os compreender a fundo, habituando-se a ver as dificuldades reais que se deparam nas coisas que se afiguram fáceis ao simplismo e à superficialidade do que se chama senso-comum [a filosofia é, em não pequena parte, a luta do bom-senso contra o «senso-comum»].

(...) Deverá pois a iniciação filosófica assumir um carácter essencialmente crítico, e consistir num debate dos problemas básicos que não seja dominado pelo intuito dogmático de cerrar as portas às discussões ulteriores; e um bom professor do lidar filosófico é como um indivíduo que nos lecciona ginástica procedendo ele próprio como um bom ginasta, e obrigando-nos a nós a fazer ginástica; é quem nos ministra um trabalho crítico, um modelo da faina de elucidação dos problemas (...). Repito: seja a filosofia para o aprendiz de filósofo, não uma pilha de conclusões adoptadas, e sim uma actividade de elucidação dos problemas. É esta actividade o que realmente importa, e não o aceitar e propagandear conclusões. (…) Pode ser muito útil para a vida prática o simples conhecimento do enunciado de uns tantos teoremas de matemática: porém, não há nisso sombra de valor cultural: só possui de facto valor cultural o perfeito entendimento dos raciocínios que nos dão as provas dos enunciados.

Por isso mesmo, ao lermos um filósofo de genuíno mérito de dois erros opostos nos cumprirá guardar-nos: o primeiro, o de nos mantermos aí eternamente passivos e de tudo aceitarmos como se fossem dogmas, de que depois tentaremos convencer o próximo; o segundo, o de criticarmos demasiado cedo, antes de chegarmos à compreensão do texto. Para evitar o escolho do segundo erro, a atitude inicial do aprendiz de filósofo deverá ser receptiva e de todo humilde. Se achar uma ideia no texto de um Mestre que lhe pareça de fácil refutação, – conclua (...) que o pensar do autor deverá ser mais fino, mais meandroso, mais facetado, mais verrumante, do que ao primeiro relance se lhe afigurou: e que se lhe impõe portanto uma atenção maior [nada há no mundo de tamanha rópia como o tom com que julga refutar um Mestre um pedaço de asno que o não entende; e o melhor processo, nessa primeira fase, é talvez o de refazermos por iniciativa nossa, com exemplos familiares da nossa própria experiência, a doutrina exposta pelo autor que estudamos, até que a tenhamos como coisa nossa, porque feita de matéria verdadeiramente nossa, e reconstruída pelo nosso espírito. [Quem sabe reproduzir uma teoria genérica, em elocução abstracta, mas não sabe reconstruí-la com a familiar experiência, não percebe real­mente o que está dizendo.» (António Sérgio, in Problemas da Filosofia de Bertrand Russell, Coimbra, Arménio Amado-Editor, 1974, pp. 7-10).

Em linhas gerais, como poderemos resumir a lição de António Sérgio? Compare as suas conclusões, se as tirou, com os quatro tópicos seguintes, e discuta-os:

Tema dominante: Conselhos ao aprendiz de filósofo [igual a aprendizagem da Filosofia], dizendo que: 

  • A Filosofia é uma actividade crítica:
  • A Filosofia centra-se na discussão e elucidação de problemas [não é um conjunto de respostas dadas].

Definição e valor da Filosofia [2.º parágrafo]: Começa por introduzir uma definição de Filosofia e o valor que ela assume para a cultura do espírito, explicitando deste modo o sentido e a importância dos conselhos dados no 1.º parágrafo.

Atitude crítica e atitude natural 

  • A definição de Filosofia, no final do 1.º parágrafo [dada entre parênteses], estabelece uma diferença entre atitude crítica [Filosofia] e atitude natural [senso comum].
  • O significado de dois erros que é preciso evitar [3.º parágrafo], a saber, o dogmatismo [aceitar tudo como dogmas] e o cepticismo [rejeitar tudo antes de tentar a sua compreensão]. 

Conclusão: O ensino da Filosofia não deverá ser a «pura transmissão de respostas precisas» e a aprendizagem não deverá ser a pura assimilação daquelas respostas.

Para uma boa aprendizagem da Filosofia, os conselhos dos filósofos António Sérgio e Karl Jaspers deverão ser considerados. Se seguir estas orientações, verificará que, ao contrário do que é vulgarmente dito, a Filosofia não é uma disciplina difícil de estudar.

Todas as disciplinas têm as suas dificuldades próprias, e nenhuma se aprende se não for estudada. O que dizemos é que a Filosofia não se memoriza como se faz com um número de telefone, uma fórmula química, um poema de Camões ou uma receita de culinária. A Filosofia estuda-se reflectindo sobre as ideias, as concepções, os princípios propostos pelos filósofos, pelos professores, pelas circunstâncias da vida, compreendendo e elucidando o seu sentido e amplitude.

Por isso, «Deve destruir-se o preconceito, muito difundido, de que a filosofia é algo de muito difícil pelo facto de ser a actividade intelectual própria de uma determinada categoria de especialistas ou de filósofos profissionais e sistemáticos. Por conseguinte, deve começar-se por demonstrar que todos os homens são «filósofos», definindo-se os limites e as características desta «filosofia espontânea», própria de «toda a gente», ou seja, da filosofia contida: a) na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não só de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo; b) no senso comum e no bom senso; c) na religião popular e, portanto, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, formas de ver e de actuar que se incluam no que em geral se chama «folclore.» (A. Gramsci, Introdução à Filosofia da Praxis, Lisboa, Edições Antídoto, 1978, p. 8).

Quem são os filósofos?

Todos somos filósofos, diz Gramsci. No entanto, temos que distinguir o «filósofo» que todos somos, que ocasionalmente filosofa espontaneamente, do filósofo que sabe do ofício, o filósofo intencional, que concebe uma visão do mundo e da vida, que incessantemente está em busca da verdade e dos fundamentos para as suas ideias, princípios e concepções.

O filósofo também se distingue do sábio. Este é o que melhor responde, aquele o que mais pergunta [ver texto de Romeu de Melo, a seguir]. Enfim, o filósofo é aquele profissional que luta contra os preconceitos, o que está estabelecido, os dogmatismos e cepticismos, o laxismo e o facilitismo, e procura elucidar, por meio da reflexão, não só aqueles estados de espírito, como o conhecimento e o ser. 

«Talvez possa dizer-se, esquematicamente, que o filósofo é aquele que mais pergunta, enquanto o sábio é o que mais e melhor sabe responder. Trata-se de dois perfis, não raramente coincidentes, mas que demarcam duas posturas ou posições que não devem confundir-se. Nos seus respectivos limites, o primeiro levar-nos-á ao ponto Ómega e aos confins do universo, enquanto o segundo nos conduzirá à supermecanização e automatização da vida e da sociedade.» (Romeu de Melo, In Diário de Notícias, de 26/12/87).

Pelo que está dito (...), a Filosofia não é uma amálgama de teses sem relação, um conjunto de ideias desarticuladas. A Filosofia é um estado de alma, um produto da inteligência humana. Se a Filosofia é um estado da alma humana, o filósofo é aquele que se bate contra os preconceitos, pela autonomia da razão; é aquele que, pela reflexão crítica, esclarece o seu pensamento e toma posição perante o mundo e a vida, procurando incessantemente o caminho da verdade. (António Pinela, Apontamentos de Filosofia (1990).

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publicado por António Pinela, António Pinela às 15:33

Segunda-feira, 15.04.13

O regresso ao existencialismo

Como outras correntes da Filosofia, o existencialismo marca o seu tempo. Compreende-se que o século vinte tenha produzido esta forma de pensamento. Pensamento traduzido numa filosofia que melhor responde ao tempo vivido, a partir da Primeira Grande Guerra Mundial. Começa, neste período a estar em causa a preservação da existência humana, como se verificou com a Segunda Guerra Mundial, e outras ocorrências ulteriores, outras Guerras. Desta forma, o existencialismo não é uma filosofia que, prioritariamente, se contraponha a quaisquer outras correntes de pensamento, mas sim uma forma de dar resposta àqueles para quem a vida humana mais não é do que um simples instrumento, que pode ser útil em determinado momento mas que, depois, se ostraciza ou destrói, quando deixa de ter utilidade; para quem, o cidadão, que perde esta qualidade, às mãos de déspotas ou de personalidades toscas, não passa de simples número estatístico.

É tal a força deste novo modo de pensar (o existencialismo) que influenciará todas as formas de expressão do pensamento, no decurso do século XX. Nenhuma manifestação humanista ficou incólume: da filosofia à literatura, do ensaio ao teatro, do cinema à telenovela. Em sentido positivo, o existencialismo passa a ser uma filosofia em moda, da qual é impossível estar ausente.

Dadas as circunstâncias em que emerge, o existencialismo é uma corrente de pensamento muito diferente das correntes racionalistas que a antecederam, com relevância para o cartesianismo. Como diriam os seus cultores, é uma filosofia que se preocupa, não com as formas abstractas de pensamento, não com os encadeamentos lógicos, não com os sistemas em que é preciso enquadrar o ser humano, mas sim com o homem concreto, o homem em situação, o homem que vive, que ama e sofre. E, nesta medida, é uma filosofia que recusa a redução do homem ao plano conceptual das «lógicas» que imperavam (e que voltam a imperar, em força, neste tempo que vivemos. Veja-se o que se passa com a organização da Europa, onde reinam as tecnocracias, e os homens sem rosto, eufemísticamente ditos: os mercados).

Uma vez que, o que caracteriza o homem, no seu pensamento emergente, não é a objectividade (estatística), mas sim a sua subjectividade, e sendo esta o ponto de partida do ser consciente, é a partir desta consciência que o homem pode alcançar a objectividade, e não o contrário. É com o meu pensamento que inicio o meu percurso consciente, e não inserto em espartilhos saídos de estereótipos por outros elaborados e impostos, que consideram como bons para os outros, não para si.

Partindo do primado da pessoa humana, afirmar-se-á que o existencialismo não é uma filosofia que se compare aos sistemas tradicionais, que procuram formas de unificação do pensamento, em torno de ideias chave, com vista a um todo organizado e constituído em sistema. Ao invés, o existencialismo preocupa-se e ocupa-se com a vida concreta do homem, com o mistério da vida, com o que se passa consigo no dia-a-dia. Isto é, os problemas que a vida traz, os fracassos e as vitórias, a angústia e o desespero, o absurdo da vida e da morte e, também, a esperança. Simplesmente, é uma reflexão cujo fundamento autêntico e essencial é a vida concreta. É, por isso, uma filosofia do homem concreto.

Este tempo que vivemos, hoje, leva-me a revisitar esta corrente de pensamento, que continua a fazer sentido no século XXI. As Guerras que teimam em não parar; as agressões contínuas, de toda a ordem, à pessoa humana; a insegurança em todas as suas dimensões; os falsos democratas que por aí pululam, arrogando-se perigosamente da luz que ilumina as trevas; a moda das não ideologias, que nos deixa desarmados, porque ficamos sem saber quem é quem, ou das ideologias cegas neo-liberais, onde não é difícil encontrar protagonistas, que estão determinados a aplicar os seus ideais, como já se constata, assim que a oportunidade surja.

É para contrariar esta situação que penso que se justifica o regresso ao existencialismo, ou, dito de outra forma,  à reflexão continuada sobre os valores que defendem a pessoa concreta. Sem deixar de agir, é necessário pensar. Pensar o Homem concreto. Tarefa de que os filósofos e outros pensadores não se podem alhear, sob pena de não cumprirem o seu papel em prol de uma sociedade justa.

António Pinela

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publicado por António Pinela, António Pinela às 23:04

Domingo, 14.04.13

O Sentido da Educação Filosófica

A propósito, deste dia de reflexão (01.10.17), dia de eleições autárquicas, se tiver paciência, leia este texto para descontrair.

 

Falaram-me há dias do sentido.

Que é para ti o sentido?

Que sentido?

O sentido que faz sentido!

Referes-te ao sentido da vida e das suas contradições?

Sim.

Achas que tem sentido?

Creio que falas do sentido de viver, de ter, de ser e de aprender…

Sobretudo de aprender e de Ser.

Naturalmente que aprender e Ser faz sentido!

Mas diz-me, existe diferenças entre aprender e ser?

Ou seja, para aprender é necessário Ser, achas que isto tem sentido?

Tem sentido aprender?

Com certeza!

Se não aprendemos, como sabemos!

Mas sabemos alguma coisa?

Que cepticismo esse, homem!

Porque aprendemos, sabemos.

Quer dizer, porque sabemos, aprendemos,

O que me parece que faz sentido...

De que coisas aprendemos o sentido?

Aprendemos o sentido da Geografia e da Economia,

Do Português, do Inglês, do Latim, do Grego e do Francês.

Da Gramática, da Linguística e da Matemática.

Da Biologia, da Física, da Mecanotecnia e da Sociologia.

Da Agricultura e da Filosofia.

Que mais temos que aprender?

Outros saberes que nos indiquem o lugar do nosso Ser!

Sabes, por acaso, onde vivo?

Eis o meu endereço:

O meu nome é António        

Resido numa Rua de uma Cidade,

Lisboa é a Capital,

Portugal é o meu País,

A Europa é o Continente,

Terra, o Planeta,

Um dos nove (?) do Sistema Solar,

Do qual disto cerca de 150 milhões de quilómetros.

O Sol, o Sistema a que pertenço,

Dizem os Sábios, é a estrela que se encontra mais perto de mim.

Por seu turno, o Sistema Solar está inserido numa Galáxia que contém aproximadamente 100 milhões de estrelas, cujo centro é constituído pela Via Láctea.

Podem, ainda, endereçar-me a vossa correspondência para este sítio,

Que é uma Nebulosa, ou faixa esbranquiçada,

Que se vê, no Céu, em Noites claras e é devida a uma multidão de estrelas.

A centenas de milhões de anos-luz existem outros sistemas, separados do nosso pelo Vazio,

Que se distribuem no Espaço infinito, como pequenas ilhas num Oceano Imenso…

Mas se não me encontrarem em nenhum destes lugares,

Há outras possibilidades, há sempre mais uma possibilidade:

Enviem o vosso correio para o Infinito,

Que Aristóteles sustentava a impossibilidade de se conhecer,

Mas que Demócrito dizia que era o Espaço Vazio.

Já que vos dei o meu endereço,

Espero por notícias vossas!

Agora já sabem onde estou.

Mas sabeis quem sou?

Sófocles afirma que

            “Nada é mais maravilhoso do que o homem”.

            Eu sou um homem.

Nietzsche defendia que o homem é

            “O animal que não se define nunca”.

            Fico confuso!

Karl Jaspers, usando de bom senso, defende que o

            “Homem é, em princípio, mais do que pode saber de si”.

            O que me conforta.

António Gedeão diz de nós

            “Inútil definir este animal aflito.

            Nem palavras,

            Nem cinzéis

            Nem acordes

            Nem pincéis

            São gargantas deste grito.

            Universo em expansão.

            Pincelada de Zarcão

            Desde mais infinito a menos infinito.”

Já sabemos também quem sou.

Mas não fica por aqui a minha curiosidade,

Que é fonte de saber: Lembras-te?

Falámos de algumas disciplinas

Que não me disseram de onde venho,

Que caminhos serão os meus, és capaz de me indicar?

E sem te querer aborrecer, usando o teu saber,

Diz-me para onde vou?

Que projecto é o meu Destino?

E se não sou atrevido,

Faz-me mais um favor,

De tudo isto explica-me o Sentido!

No entanto, se te sentes embaraçado, podemos interdisciplinar,

Façamos todos uma reflexão sobre a nossa situação,

Implementemos uma dialéctica para encontrar a síntese que nos indique o Caminho, a Rota, a Via,

E quem sabe, talvez encontremos o Sentido de Tudo isto com a ajuda da Filosofia.

(António Pinela, Reflexões, 1987).

 

Nota: publicado no blog em 2013:

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publicado por António Pinela, António Pinela às 15:53

Quinta-feira, 12.05.11

Porque temos necessidade de reflectir?

O acto de pensamento que apelidamos de reflexão é sempre um acto presente. No entanto, a reflexão é sempre reflexão sobre o passado: o que nos aconteceu, o que já pensámos. É, portanto, pensamento sobre uma situação. O ser humano é sempre um ser em situação: no trabalho, na vida familiar, na vida social, etc.

O que nos leva a reflectir é, portanto, o estarmos sempre presentes, e esta presença implica permanentemente a inquietação e a dúvida. Perante estas, o homem procura uma posição existencialmente assumida, confortável, e a inteligibilidade da situação porque passa ou passou. Assim, do ponto de vista filosófico, o homem posiciona-se sobre a realidade que o envolve do ponto de vista crítico, para obter a clarificação e, assim, poder orientar a sua conduta. Por esta via, e se as coisas do mundo também o despertam, ele amplia a sua reflexão e é capaz de apreender os grandes problemas universais que o inquietam, como: As origens, O sofrimento, As situações-limite, A injustiça, O destino, A morte, O significado da existência, A dimensão do amor, A existência de Deus, entre outros.

A partir das interrogações inquietantes, sempre eternas, que perturbam a humanidade, o homem procura e delineia para si uma resposta. Por isso se diz, e com razão, que a reflexão filosófica caracteriza-se pela subjectividade, porque é um perguntar pessoal. Enfim, a atitude filosófica concorre para que a) o homem filosofante se empenhe num esforço crítico, cuja finalidade é obter maior certeza perante as dúvidas imediatas; b) a reflexão filosófica determina a nossa conduta; e c) a dúvida, a crítica, o sentimento do não saber e a consequente pesquisa – princípios fundamentais da afirmação humana – concorrem para que o homem se consciencialize dos grandes temas universais, e se vincule a uma atitude perante a vida, o saber e o Mundo.

Este é o caminho que determina o Homem consciente, informado e livre, que é o Homem total. O homem ao aperceber-se da multiplicidade do existente, ao sentir dificuldades na interpretação das "realidades" Natural e Social, ao perguntar-se porquê assim e não de outro modo, sente necessidade de reflectir sobre si mesmo e o mundo exterior: o mundo envolvente, "misterioso", "contraditório". Então, procura responder a essa emergência interrogativa.

As interrogações iniciais, sobre problemas existenciais, dirão alguns, são demasiado irracionais e pueris, e pouco ou nada terão a ver com as vivências concretas! No entanto, tenhamos presente que todas as experiências sempre têm um princípio, e que aos primeiros balbucios pode seguir-se a fase de afirmação. O interrogar ingénuo, a procura sem encontrar, é já o alimento imprescindível para o desenvolvimento ulterior do espírito e é também o filosofar que emerge. Com efeito, todo o homem - mesmo que de todo o ignore - pratica uma filosofia: é a filosofia espontânea que é comum a todo o ser humano.

Filosofar implica, em graus diferentes, a consciência do pensamento. Pensamento é a faculdade de pensar, é todo o fenómeno da consciência. Devemos, no entanto, distinguir o pensamento que é racional, reflexivo (neste caso, pensar é julgar, é o produto da reflexão) do pensamento que temos imediatamente pelo “conhecimento” dos objectos (que é espontâneo).

Esta noção de pensamento implica, naturalmente, diferentes níveis de filosofar: um situa-se ao nível do perguntar ingénuo, do saber do quotidiano, aquele que a vida ensina! Outro é um tipo de saber premeditado, que problematiza toda a realidade com a intenção de a esclarecer. O esclarecimento, para o homem em situação, é a luz que lhe indica o caminho, mas, por vezes, as trevas ocultam a sua visibilidade e desvia-o do caminho inicial, do caminho da verdade. Quanto sofrimento é causado por tais desvios? Vale a pena reflectir sobre as situações criadas pelo Homem, cada homem. Alguém está imune?

António Pinela.

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publicado por António Pinela, António Pinela às 18:15



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