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FILOSOFIA

A Filosofia é uma concepção do mundo e da vida, é amor pela sabedoria, é reflexão crítica e investigativa do conhecimento e do ser. António A. B. Pinela.


Domingo, 04.06.17

Crise das civilizações (?) e mutação de valores

Publiquei este texto em 2010, mas creio que plena actualidade:

Como escreve Manuel Garcia Morente [filósofo espanhol (1886-1942)], nos seus Fundamentos da Filosofia, todo o valor tem o seu contravalor. Ao valor conveniente contrapõe-se o valor inconveniente (contravalor); a bom contrapõe-se mau; a generoso contrapõe-se mesquinho; a belo contrapõe-se feio; a sublime contrapõe-se ridículo; a santo contrapõe-se profano. Não há um só valor, diz ele, que não tenha o seu contravalor negativo ou positivo.

Esta polaridade é susceptível de criar a indiferença humana por aqueles que defendem valores contrários e/ou contraditórios. Tal indiferença, quando foi levada ao extremo provocou rupturas, acentuou desigualdades, descambou em conflitos, prolongou crises. Contudo, esta polarização de valores é um registo constante da História. Neste sentido, recordando alguns episódios da História da Humanidade, o que vemos nós senão o desfilar de crises das civilizações e dos deuses; de períodos de pressão e de alguma tranquilidade. Assistiu-se à extinção do mundo grego e do império romano, ao nascimento da Europa de Carlos Magno e ao desmoronamento na civilização feudal; ao fulgor da expansão árabe e à retracção do predomínio dos Estados cristãos.

Adorou-se Cristo, adorou-se Maomé. Por ambos morreram homens, por ambos nasceram esperanças e se desfizeram ilusões. Em nome de um Deus infinitamente misericordioso, foram torturados hereges e não hereges, judeus e cristãos-novos. Estas visões da História levam, assim, a perguntar o que significa afinal um mundo em crise, o fim de uma civilização, a decadência dos valores tradicionais, os estados pobres. Poder-se-á dizer, que ao longo da História os povos estiveram sempre, mais ou menos, fracassados e em crise, que sempre se mostraram descontentes com os valores tradicionais e se consideravam no fim de um ciclo de civilização. Porque é uma realidade em devir, a civilização não se pode previamente definir nem limitar o seu andamento; é um processo contínuo que os homens vão vivendo, e sofrendo a sua natural e intermitente evolução. Quando o homem considerar a crise derrotada, a civilização estável, os valores imutáveis, as finanças do Estado favoráveis, então homem já não é homem, mas talvez seja uma máquina que obedecerá a qualquer outra máquina que o Homem tenha previamente criado.

A imaginação, a criação, a afirmação do homem levará fatalmente à permanente crise de valores e de civilizações. Quando houve estabilidade? Nem toda a gente leva a sério ou se apercebe da crise dos sistemas de valores vigentes e, por consequência, do caos que se vai instalando neste nosso mundo global, mas contraditório. Os valores económicos, que dominam as sociedades, são subvertidos pela ganância do poder e do dinheiro. A repartição da riqueza é adulterada. A humanidade é desprezada e vilipendiada pelos humanos.

Os homens destroem-se uns aos outros, querendo uns usufruir do trabalho que não produziram, e uns tantos dominar os restantes. As novas formas de vida, produto de uma sociedade altamente consumista, virada para o prazer fácil e imediato, torna o ser humano cada vez mais egoísta e desapegado dos outros, importando apenas o bem-estar pessoal, mesmo que o OUTRO, que é, afinal, a nossa razão de existir, seja simplesmente aniquilado pelas agruras da vida. A atitude fundamental da nova concepção de vida centra-se numa espécie de vida calculada e imediatista, sendo muito diferente dos modos de vida idealizados por sonhadores, poetas, filósofos e escritores. Vão longe os tempos dos ideais que pugnavam pela igualdade de oportunidades, uma vivência saudável, sem egoísmos nem fronteiras, alicerçada numa vida Justa e humanizada.

 António A. B. Pinela

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publicado por António Pinela, António Pinela às 17:28

Segunda-feira, 13.05.13

Os valores do nosso tempo

Poder-se-á afirmar que existe uma crise de valores no nosso tempo? Anda o homem, dito moderno, em busca de uma nova moral? Como salvar a dignidade do homem e a harmonia das relações humanas?

Vivemos num tempo em que se verificam desmesurados conflitos políticos e espirituais. Esfuma-se a ideologia política, impera a lei da ‘suprema economia’, que procura, a todo o momento, reduzir a política ao ridículo. Os senhores do dinheiro ameaçam os políticos que nos governam, com a moda das deslocalizações para latitudes mais favoráveis para eles, leia-se, onde a exploração de quem trabalha é ainda maior do que nos países de origem.

Os políticos desacreditam-se uns aos outros, ofendem-se, utilizam uma linguagem patológica, e já ninguém os respeita nem neles acredita, dizendo-se com frequência que «quem não sabe fazer mais nada vai para político, onde aufere salário chorudo, fazendo pequenos gestos: como erguer-se e sentar-se durante as sessões parlamentares, aquando das votações das Leis da República».

No campo religioso, as coisas também não vão bem. Extremam-se posições e, nas grandes religiões, nem todos entendem da mesma maneira o sentido da liberdade, em geral, e da liberdade religiosa, em particular. Os fanatismos fazem o seu caminho, conduzindo à estupidificação humana e à utilização das pessoas (depois de estupidificadas) como armas destruidoras de si próprias e dos outros. É o que vemos todos os dias por esse mundo sombrio.

A globalização da economia está a destruir a humanidade. A concorrência é feroz e desleal, a tecnologia procura aliviar os factores de produção, isto é, através das novas tecnologias procura-se produzir mais com menos custos. Utilizando o maior número de meios técnicos e empregando menos pessoas, criando-se assim um exército de desempregados, cada vez maior. A miséria espreita em cada lar. Cada dia que passa vemos mais gente a passar dificuldades.

Os estrategas da economia, primeiro, criaram-nos as necessidades. Disseram-nos que era bom usarmos o telemóvel, cada vez mais sofisticado, que tem tudo, mas sendo menos telefone e mais jogos, rádio, Internet, televisão, e sei lá mais o quê! De seis em seis meses lançam no mercado novos computadores, cada vez mais sofisticados, com novo software, cada vez mais complexo, que já não corre nos computadores que temos, obrigando-nos a adquirir novas máquinas. Fazem-nos crer que temos outra personalidade se adquirirmos aquele modelo de carro agora publicitado. Dizem-nos que ficamos mais cultos e mais interessantes, se viajarmos pelo Brasil, Cuba, Costa Rica, Caraíbas, Jamaica, Porto Rico, Cabo Verde, etc., mesmo que não tenhamos dinheiro, pois os promotores das viagens fazem o favor de nos indicar quem nos paga as ditas e a estada, que pagaremos depois em suaves prestações, que nunca mais terminam… É uma festa! Amarga, muito amarga, depois!

Eles controlam o nosso dinheiro. Se desconfiam que temos algumas economias, fiquemos descansados que logo encontram a maneira de nos “torrar” esses cêntimos, não vá a gente gastá-los em inutilidades. Há sempre uma aplicação, muita boa, à nossa espera, dizem-nos nas instituições bancárias. Enfim, todos nos «darão um chouriço se lhes dermos um porco».

As famílias, fruto do novo modus vivendi, deixaram de ser o que eram. Muitos dos casais, quando se referem aos filhos, dizem: «os meus filhos», «os teus filhos» e «os nossos filhos». Três categorias de filhos sob o mesmo tecto. Tudo isto, por mais que se diga o contrário, cria muitos problemas não só para os casais, mas sobretudo para os filhos.

O país está a ficar velho, o saldo entre óbitos e a natividade é negativo. Fruto das exigências da modernidade – estudos, carreira profissional –, os jovens casam cada vez mais tarde, e vão ficando pela casa paterna, fugindo assim do “desconforto” da assunção de uma vida própria. A casa paterna continua a ser um bom lugar para se viver.

Todo este caldo da cultura hodierna faz com que muitas pessoas, os menos bafejados pelo poder da sorte, se tornem amarguradas, deprimidas, sem perspectivas de futuro, exoneradas da vida.

A dialéctica dos valores versus desvalores faz funcionar o clássico problema dos valores de um novo dia que não chega... Porque os poderosos são cada vez mais fortes, e os fracos são cada vez mais débeis. E assim, por tudo o que está dito, segundo a leitura que faço da contemporaneidade, subvertem-se os valores da vida e da humanidade. Nesta caminhada repleta de escolhos, até onde seremos capazes de chegar?

Como escreve Manuel Garcia Morente (filósofo espanhol): todo o valor tem o seu contravalor. Ao valor de conveniente contrapõe-se o valor de inconveniente (contravalor); a bom contrapõe-se mau; a generoso contrapõe-se mesquinho; a belo contrapõe-se feio; a sublime contrapõe-se ridículo; a santo contrapõe-se profano. Não há um só valor que não tenha o seu contravalor negativo ou positivo. Esta polaridade é susceptível de criar a indiferença humana por aqueles que defendem valores contrários. Tal indiferença, quando levada ao extremo, provoca rupturas, acentua desigualdades, descamba em conflitos, prolonga crises. Esta oposição é um registo constante da História, onde desfilam crises religiosas, crises económicas, crises políticas, crises sociais, numa palavra, crise das civilizações. Estas realidades da História levam-nos a questionar, o que significa afinal um mundo em crise: o fim de uma civilização, a decadência dos valores tradicionais, Estados sem rumo?

O conhecimento atento da História que nos dirá? Que os povos estiveram sempre, mais ou menos, em crise. Mas não terá que ser assim, para que se dêem passos noutros sentidos, se experimentem novas possibilidades e se inventem novas formas de estar em sociedade? As crises estão sempre mais ou menos latentes; os homens nunca estão satisfeitos com a vigência da actualidade; mas quando tudo parece correr um pouco melhor, somos confrontados com uma nova situação de crise. E se a crise que está latente demora muito tempo a emergir, há que força-la a manifestar-se vigorosamente, para que os povos vivam em desassossego permanente (veja-se, neste sentido, a acção negativa de algumas agências de notação financeira, essas entidades antidemocráticas, que têm prejudicado Estados, povos e empresas).

Nem toda a gente leva a sério ou se apercebe da crise que está instalada nos sistema de valores actuais, em toda a sua amplitude, e do caos que, eventualmente, se aproxima. Os valores económicos, os que imediatamente se fazem sentir, são subvertidos pela ganância do poder de domínio de uns tantos sobre todos, e o seu sentido sublime do direito, que é a repartição justa, está adulterado.

Notam alguns clérigos que a unidade religiosa e moral, que integra a sociedade, está a desaparecer. Como pode alguém carente de bens essenciais, de segurança no trabalho e na saúde, preocupar-se, prioritariamente, com os bens religiosos e morais?

As novas formas de vida, produto de uma sociedade altamente consumista, virada para o prazer fácil e imediato, torna o ser humano cada vez mais egoísta e distante dos outros, importando apenas o bem-estar pessoal, mesmo que o OUTRO, que é, afinal, a nossa razão de existir, seja simplesmente aniquilado pelas agruras da vida. A atitude fundamental da nova concepção de vida centra-se numa espécie de vida calculada e imediatista, sendo muito diferente dos modos de vida precedentes. Não estou a dizer que é melhor ou pior, estou apenas a analisar o que penso ser a realidade, embora tenda a considerar que tais formas de vida não conduzirão a bons resultados. Vão longe os tempos dos ideais que pugnavam pela igualdade de oportunidades, alicerçada numa vida Justa e Humanizada. (António Pinela, Reflexões).

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publicado por António Pinela, António Pinela às 22:15

Segunda-feira, 08.02.10

Crise das civilizações e mutação de valores

Como escreve Manuel Garcia Morente [filósofo espanhol (1886-1942)], nos seus Fundamentos da Filosofia, todo o valor tem o seu contravalor. Ao valor conveniente contrapõe-se o valor inconveniente (contravalor); a bom contrapõe-se mau; a generoso contrapõe-se mesquinho; a belo contrapõe-se feio; a sublime contrapõe-se ridículo; a santo contrapõe-se profano. Não há um só valor, diz ele, que não tenha o seu contravalor negativo ou positivo. Esta polaridade é susceptível de criar a indiferença humana por aqueles que defendem valores contrários e/ou contraditórios. Tal indiferença, quando foi levada ao extremo provocou rupturas, acentuou desigualdades, descambou em conflitos, prolongou crises. Contudo, esta polarização de valores é um registo constante da História. Neste sentido, recordando alguns episódios da História da Humanidade, o que vemos nós senão o desfilar de crises das civilizações e dos deuses; de períodos de pressão e de alguma tranquilidade. Assistiu-se à extinção do mundo grego e do império romano, ao nascimento da Europa de Carlos Magno e ao desmoronamento na civilização feudal; ao fulgor da expansão árabe e à retracção do predomínio dos Estados cristãos. Adorou-se Cristo, adorou-se Maomé. Por ambos morreram homens, por ambos nasceram esperanças e se desfizeram ilusões. Em nome de um Deus infinitamente misericordioso, foram torturados hereges e não hereges, judeus e cristãos-novos. Estas visões da História levam, assim, a perguntar o que significa afinal um mundo em crise, o fim de uma civilização, a decadência dos valores tradicionais, os estados pobres. Poder-se-á dizer, que ao longo da História os povos estiveram sempre, mais ou menos, fracassados e em crise, que sempre se mostraram descontentes com os valores tradicionais e se consideravam no fim de um ciclo de civilização. Porque é uma realidade em devir, a civilização não se pode previamente definir nem limitar o seu andamento; é um processo contínuo que os homens vão vivendo, e sofrendo a sua natural e intermitente evolução. Quando o homem considerar a crise derrotada, a civilização estável, os valores imutáveis, as finanças do Estado favoráveis, então homem já não é homem, mas talvez seja uma máquina que obedecerá a qualquer outra máquina que o Homem tenha previamente criado. A imaginação, a criação, a afirmação do homem levará fatalmente à permanente crise de valores e de civilizações. Quando houve estabilidade? Nem toda a gente leva a sério ou se apercebe da crise dos sistemas de valores vigentes e, por consequência, do caos que se vai instalando neste nosso mundo global, mas contraditório. Os valores económicos, que dominam as sociedades, são subvertidos pela ganância do poder e do dinheiro. A repartição da riqueza é adulterada. A humanidade é desprezada e vilipendiada pelos humanos. Os homens destroem-se uns aos outros, querendo uns usufruir do trabalho que não produziram, e os tantos dominar os restantes. As novas formas de vida, produto de uma sociedade altamente consumista, virada para o prazer fácil e imediato, torna o ser humano cada vez mais egoísta e desapegado dos outros, importando apenas o bem-estar pessoal, mesmo que o OUTRO, que é, afinal, a nossa razão de existir, seja simplesmente aniquilado pelas agruras da vida. A atitude fundamental da nova concepção de vida centra-se numa espécie de vida calculada e imediatista, sendo muito diferente dos modos de vida idealizados por sonhadores, poetas, filósofos e escritores. Vão longe os tempos dos ideais que pugnavam pela igualdade de oportunidades, uma vivência saudável, sem egoísmos nem fronteiras, alicerçada numa vida Justa e humanizada.

António Pinela

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publicado por António Pinela, António Pinela às 22:44

Quinta-feira, 09.08.07

O Valor do Trabalho

1. Venho de um tempo em que o trabalho era valorizado. Ser um bom trabalhador era motivo de orgulho. Até nas relações amorosas este atributo se fazia sentir: «Ele é bom rapaz e muito bom trabalhador», ou então, «é bom rapazinho, mas não gosta de vergar a mola», ouvia-se, com frequência, aos familiares das jovens que começavam a namoriscar.
Os rapazes sabiam que se lhes dava grande apreço pelo facto de se empenharem nas tarefas em que se envolviam. No trabalho agrícola, os bons trabalhadores ostentavam grandes enxadas. Quem levasse, para o trabalho, uma pequena ferramenta era logo apodado de mandrião e teria dificuldades em colher as simpatias dos pais das jovens. Nos trabalhos do campo, os melhores eram disputados pelos lavradores, e ganhavam mais que os outros, porquanto todos queriam os seus serviços.
O trabalho era, então, personalizado, tinha a marca de quem o executava. O trabalhador olhava para a sua obra e dizia, orgulhoso: «Fui eu que fiz». Via crescer o esforço do seu trabalho: a sementeira que desabrochava e dava frutos. «Tens um belo batatal»! «Que viçosas estão as couves»! «Que sementes usaste?
Na marcenaria nascia, de mestras mãos, o móvel que alindaria o quarto de um jovem casal. Este móvel fora feito pelo mestre João. Na oficina de sapateiro, o senhor Joaquim desenhava, directamente do pé do cliente, as botas de ‘atanado’ (couro), para uso no Inverno, que lhe ficavam que nem uma luva. No escritório, um jovem, que estudara numa Escola Comercial e Industrial, desenhava, com diversos tipos de letra, os mapas contabilísticos onde registaria, com mestria e elegância, o Deve e o Haver que informava as contas de uma empresa. Tudo tinha que estar certo. Não se admitia sequer um erro de um tostão. Contas são contas.
2. O devir dos tempos trouxe também o devir das mentalidades. A partir dos anos sessenta, as relações de trabalho/produto passam por um novo processo, e descaracterizam-se! Os tractores, e outras alfaias agrícolas, lenta mas progressivamente, vão substituindo o trabalho humano, em massa. Com vantagens, mas também com desvantagens. Nas fábricas, as linhas de montagem substituem os operários, que manuseavam as peças. E o móvel já não tem o timbre do marceneiro. E mais tarde, os grandes mapas de contabilidade dão lugar às folhas A4 padronizadas. E, em todos estes casos, o produto do trabalho deixa de ter um protagonista. E, com raras e boas excepções, já não é fácil identificar quem talhou e costurou aquele casaco azul-escuro, que o Senhor Ministro trazia vestido. É que, pelo recorte, não nos pareceu que houvesse ali mão de mestre alfaiate.
3. Nos anos oitenta, para «agravar» tudo isto, promove-se, até à exaustão, o sucesso individual. Não somos contra o sucesso individual, pelo contrário, mas com regras. Primeiro, nas Escolas Secundárias, valoriza-se excessivamente os cursos da moda. O ensino industrial e comercial tinha caído em desgraça, na década de setenta. Uniformiza-se e massifica-se o ensino. Valoriza-se uns cursos em detrimento de outros, como se o ser humano fosse apenas uma parte e não um TODO. Surge, assim, a Medicina como a rainha, que grande número de alunos quer servir ou dela servir-se. Pouco depois, impõem-se a Economia e a Gestão de Empresa, que passam a ter uma forte concorrente: a Informática. E, devido à sua divulgação e publicidade, todos os miúdos querem tirar um destes cursos, dado que os órgãos de comunicação social, directa ou indirectamente, fazem apelos constantes ao sucesso, mas não ao sucesso partilhado.
E relacionado com a produção, o que se mostra? Não se mostra o grupo, a fábrica ou a escola, que criou determinado produto, ou formou determinado técnico, mas sim o indivíduo, ou seja, o médico de sucesso, o economista ou gestor de sucesso..., enfim, aquele que pelos seus desempenhos ou características emergiu do grupo. Esquece-se, assim, que ninguém triunfa sozinho. Por muito bom que se possa ser, há sempre alguém que, neste ou naquele tópico, é melhor do que nós. E o produto do trabalho, queiram ou não os individualistas, é sempre o resultado de múltiplos contributos, de um ou de vários grupos.
Podemos dizer que o que se passa em Portugal, a partir dos anos oitenta, pode ilustrar-se com este pequeno texto: «Quem ganhou a batalha não foram os soldados que combateram o inimigo, mas sim o general que, na retaguarda, ordenou aos militares que avançassem». Quem é condecorado? O general, enquanto que alguns soldados caiem nas trincheiras! Não é o que se passa com as condecorações?
O trabalho, porque está descaracterizado, é constantemente desvalorizado. E, como consequência, o trabalhador passa a ser equiparado a uma máquina que, como dizia Gabriel Marcel, logo que deixa de dar o rendimento previsto e programado é arrumado num velho armazém, para que, talvez um dia, possa ser reciclado, se tal vier a ser considerado útil para a tal produtividade.
4. Nos tempos hodiernos, fazem-se apelos, todos os dias, à produtividade, mas, ao mesmo tempo, os mesmos desvalorizam o trabalho. Aliás, com o desejo abrupto de introduzir mudanças nas relações de produtividade, que não de trabalho, cada vez mais se perde o sentido do valor deste. Aquela elite, muito bem formada, pelo menos a seus olhos, saída dos anos oitenta, ainda não entendeu, e temo que nunca venha a entender, que o trabalho é a única fonte de riqueza. Conhece outra?
Ora, se isto é verdade, porque será que não se aposta na valorização do trabalho, sabendo que ao valorizar-se o trabalho está a reconhecer-se a dignidade de quem trabalha e, como consequência, a aumentar a produtividade? Não nos esqueçamos que a máquina nunca poderá substituir o Homem. Podem os empresários equipar as empresas com a tecnologia mais sofisticada do mercado, que mesmo assim necessitam do desempenho humano, nem que seja para seleccionar o botão, de um qualquer computador, que em determinado momento é preciso premir. Aposte-se na valorização do trabalho e logo se verificará que a produtividade aumenta.
5. Diz-se muito, hoje, que os portugueses, em Portugal, produzem pouco. Já se vê que quem diz isto está a colocar-se de fora. Faz um metadiscurso. Ele produz muito, os outros é que não. Nós somos assim: «vemos a pau de fósforo no olho do outro, mas não vemos a tranca no nosso». É humano. No entanto, a todos aqueles que pensam que a culpa é sempre dos outros, recomendo que meditem na frase que estava escrita no templo de Delfos e que a Pitonisa recomendou a Sócrates: «Conhece-te a ti mesmo».
António Pinela

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Quinta-feira, 26.07.07

As opções valorativas.

A vida humana, a cada momento, é o resultado ou a soma de todas as possibilidades conseguidas: possibilidades de optar, de decidir, de fazer, etc. E à medida que vamos preferindo opções em detrimento de outras, valores em detrimento de outros, vamos também orientando a nossa vida segundo determinados parâmetros e, com isso, abandonando outras possibilidades, que nunca chegaremos a saber se seriam melhores ou piores, enquanto desta forma vamos limitando as possibilidades futuras.

O nosso campo de acção, à medida que a vida fluí, é cada vez mais estreito. A nossa liberdade actual está naturalmente condicionada pelo uso que fizemos da nossa liberdade passada, que por sua vez limita a liberdade futura. Um acto de liberdade presente é um compromisso com o futuro. A liberdade não é uma abstracção, é uma prática. É uma prática que se reflecte em toda a nossa vida. Desta feita, comprometido pelas suas opções passadas, pelas suas paixões e orientações de vida, pela sua educação e cultura, pelo modo como vê a vida e o mundo, mas também pela sua constituição física e psicológica, o homem está cada vez mais limitado na sua acção. E mais limitado está aquele que se julga para além dos outros, porque não compreendeu nada do outro nem da vida. Com efeito, o homem está limitado por várias condicionantes que, em conjunto, condicionam a sua situação. E como o homem está sempre em situação, e porque cada situação está limitada por um conjunto de condicionantes, já não posso alterar a minha situação actual, porque não posso alterar as situações que a antecederam. E, não raras vezes, nem o arrependimento nos pode dissolver a intranquilidade devida às opções incorrectas que tomámos. O que quer dizer que a minha vida hoje poderia ser outra se tivessem sido outras as opções, outras as vivências, outras as condicionantes, outras as situações.

António Pinela

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Sexta-feira, 13.07.07

Os Valores da Liberdade

«Não faças o que não gostares que te façam». Pítaco de Mitilene

Os valores. Que significa valor? Quanto vale isto? Perguntamos. Quanto vale esta coisa, quanto custa? Estamos a falar de valor comercial. Mas também dizemos, fulano tem muito valor. Às vezes quereríamos dizer que ele tem muito mérito, porque tem merecimento ou aptidão. Ou então dizemos que é muito prestimoso, ou seja, que é uma pessoa prestável. Não raro dizemos a um amigo: este relógio raramente está certo, mas não me desfaria dele por nada deste mundo. Este relógio tem, para o seu possuidor, valor de estimação.
Existem qualidades que são desejáveis, como por exemplo, quando gostamos de algo, um objecto que pela sua beleza o escolhemos em detrimento de outros; ou quando achamos bela a pessoa amada. Estamos a falar de valores com outro sentido, o sentido do gosto, do belo. Por outro lado, todo o ser humano de bom senso, que não é egoísta, é capaz de reconhecer as boas acções, a verticalidade, a bondade dos outros. Falamos, neste caso, de uma pessoa de alto valor moral.
Como se verifica, a questão dos valores não é apenas um problema filosófico. Com efeito, surge para cada um de nós, com uma acuidade extrema, toda a vez que se torna necessário enfrentar uma situação dada. Cada pessoa adopta determinada atitude em face dos problemas políticos, sociais e ideológicos e, consequentemente, diante dos valores éticos, estéticos, religiosos, etc. Porquanto, cada indivíduo defronta-se, implicitamente, com o problema do sentido da vida e, de modo mais geral, com o problema dos valores. A realização de si, a necessidade para o indivíduo de se integrar na colectividade, as exigências do eu, o desejo de se realizar como personalidade visível, e às vezes até para dar nas vistas, são factos antropológicos e individuais a que o ser humano não escapa, embora se façam acentuar mais exageradamente em algumas personalidades complexadas, devido a problemas de ordem física ou psicológica. E assim, cada ser humano manifesta a sua liberdade ao realizar ou não os valores, e não ao dar-se a ilusão de impor os seus próprios valores aos outros e à sociedade. Aliás, os valores não se impõem por particulares.
António Pinela

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